A Garganta da Serpente
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Manoel (Du)
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HOJE

Fiz questão de ver flores em meu caminho.
Para um velório?
Para um ramalhete apaixonado?

Na hora eu não pensei
(Só queria mesmo as flores),
Como naqueles instantes
inesperados e gratuitos de felicidade.

Estavam lindas!
E as vi e senti.

Agora já morreram.
Nada assim foi feito pra durar.

 

 

Aflição Poética

Ando a procurar palavras,
Nos dicionários,
Nos muros da cidade,
Nas bocas desdentadas, não letradas.
Procuro, procuro...
E nada.

Quero signos pequenos,
Mas que ecoem imensos,
Harmônicos,
Onde bocas se possam inebriar
Com a leveza de quem canta uma canção viva.

Procuro... palavras... e nada.
Meu martírio?
Dar nome a este turbilhão que já amaldiçoa,
Traze-lo às glórias e aos infortúnios da vida.
Livrar-me dessa aflição poética,
Intensa dor de mil facas,
Angustia que dilacera,
Sufoca,
Inexorável, ignora minhas juras,
Minhas sofridas promessas
E da noite me escraviza.

Mas antes que a estrela rasgue os céus
Hei sim de te ofertar aos signos, ao códigos,
Ao mundo, às bocas, às críticas,
às paixões, aos dissabores, ao futuro
- não sem que eu sofra
Poesia malcriada,
Tu há de ter o teu momento,
E me levará contigo ao gozo paraíso.

 

 

Andanças

Gostando ou não aí está,
A vida amarelo-ouro, amarelada,
Com verde e sem esperança,
Curta e longa de andanças.

O ouro... se perdeu pelo caminho,
E o meu eu em tantos eus,
Já não queima mais o que antes era fogo,
Em verdade já nem sei se um dia mesmo ardeu.

O destino arteiro, menino,
Há muito também já se demonstrou
Legou-me o acaso, esse escroto marca-passo,
Nada mais planejo, nada sei do que virá.

E o que me resta? Saber que virá,
O que esperar? O agora embriagado;
Pensar a vida... entregar-se a morte,
O ouro que desbota, tempo que não vai voltar.

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última atualização: 09.10.08
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