A Garganta da Serpente
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Maíra Freitas
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Almanaque

(ao poeta Nei Duclós)

O bonde o trouxe
De terras longínquas
Formatando elogios
Me cercando de novas palavras
Épico senhor
Da arte sem barreiras
Melodias acasalando poesias
Crítica visceral
Àquilo que importuna
E priva - sem direito -

Antigo...
Histórias e nomes fluem
Me abarrota de novos conceitos
Retrôs talvez, novos para minhas
Poucas primaveras
Essa História que brada
Pulsa e palpita
Em um homem que acima de tudo
É vivo...
Vivo e poeta
Tudo que é repleto de cor e ânsia
Germina e fecunda em sua pena

Senhor das palavras,
Colore meu castelo-dicionário
De portões ainda içados.

 

 

Cala

Onde está a palavra que me resume?
O poema que pune?
Vejo as sílabas com chibata
- Vem, me bata!
Elas não vêm...
Ficam feito estátuas
No morno do jardim
Tudo é belo e calmo
Mas nada cheira jasmim
A ré na contramão
Configura o espaço
Entre vida e morte
Só, a sorte se aproxima,
Língua não se rebate
Palavra não me sai
O poeta - pobre escravo -
Nada domina nessa mata
A floresta já se fez
A poesia se formou
Sozinha
A ladainha soa
Inseto voa
Pseudo-fruto
Do amanhã
O pergaminho
Repleto e vasto
Holograma do que não crio
Daquilo que fica
No caos
No chão
No ar
O poema, às vezes,
Não sabe falar.

 

 

Criatura, Criador

Um perfume excêntrico seu corpo deve exalar
Como que cheiro de poeta
Ou de Ilhas Canárias
Pimentas depositadas no pilão
Amasso com hortelã-refresco
Guarnição de poema
Personagem bela jamais deve comer no papel
Marcaria com gordura...
Deve transparecer o ideal, perfeito, correto
- A vida não é correta! - brada a protagonista rebelde
Teimosa, pausa minha obra para horário de almoço
Defendido pelo sindicato das personagens inexistentes
Invade minha página um cheiro ocre
De gás vazando do fogão
Que futilidade mais cotidiana!
Um zunido...
Dormes?
Colori minha página, não seja ingrata...
Você é a anfitriã
Não durmas antes do leitor!

Infelizes poetas...
Agora precisam argumentar até mesmo com suas criações
Elas querem seus direitos respeitados:
FGTS recolhido, horas extras, salubridade noturna
Mas te pergunto, criação devassa
E os meus direitos de criador, quem respeita?

 

 

Idílio do Lado Avesso

Esse sentimento desertor
Que trouxe somente
Consciências avessas
Pro meu peito
Fazendo-me caixeira
De ilusões
Das mais determinadas ilusões
Eu ainda me encontro
Pierrô das mentiras
Talvez essa dor
Seja martírios de filáucias vãs
Seja a bala disparada
Contra o que não morre
Seja o reflexo no espelho
- absurdamente sem paradeiro -
O eu que se mata e não morre
Tento fracassada esmagar
A flor desse capricho
Aniquilar essa tempestade
Posterior à chuva fina
Daquela paixão menina
Idílio lodoso
Nada de suave me pertence
Trago à fronte o rifle da amargura
Sem bala, sem peso, sem forma
Trago à fronte o punhal do cansaço
De ter meu ser
Domado pela minúcia do teu ser
E de saber que em uma aurora dessas
Vencerei por ter
Desconchavado você de mim

 

 

Lúdico

(à menina Sônia Santos)

Tijolos macios
Coloridos
Janela de submarino
Te vejo sereia
Cavalgando cavalos marinhos
Na profundeza do ar

Teu salto acrobata
No cipó da trilha úmida
Arranca palmas dos elfos
Sempre escondidos

Tua sopa de maracujá
Mimosa suculenta
Avisto nas alturas
Subo o cubo da árvore
Colho a fruta do absurdo
Fruta cor
Lilás de Almodóvar

Peixes nadam felizes
No teu banho
Observam com vergonha
A água que cobre
A nudez da tua prata

Teu sono
Criança montada em girafas azuis
Te levam, doce construtora do lúdico

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última atualização: 24.07.08
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