MINHAS CALCINHAS
Minhas calcinhas são como eu:
inesperadas,
surpreendentes,
velhas conhecidas...
Não há nada nelas que chame a atenção,
sejam de seda ou de algodão,
tanguinhas ou calçolas,
afinal, eu sou a dona...
Há, no entanto, algo incomum:
são cheirosas, de um cheiro terra,
de um cheiro chuva,
de um cheiro mar.
Bordadas de desejos,
confeccionadas de carícias,
do formato dos olhos que as desvendam,
abrigam a pureza de um segredo de amor.
Podem ser retiradas delicadamente, pela pele úmida,
arrancadas com o furor da paixão,
ou ficam ali, bem quietas,
testemunhas mudas do vulcão.
Minhas calcinhas têm lugar cativo,
gaveta da beleza,
armário dos sonhos,
envoltas no fascínio do fetiche.
Têm ciúme umas das outras,
disputam a vez,
e toda vez que as procuro
olham para mim com avidez.
Coloridas ou não,
uma para cada ocasião,
prontas para as sensações,
absorventes dos meus choros e canções.
Calcinhas de renda, veludo, cetim,
ou de pano simples,
sem graça e sem fita,
pros dias sem festa, sem boca e sem mão.
Mas podem ter gosto,
sabor diferente,
morango ou pistache,
chocolate e cereja.
São todas tão minhas, tão caras, tão sóbrias,
que mesmo sem elas, estou bem vestida.
Se eu ando, ou se eu danço, se eu sento ou se eu deito,
emanam um encanto, meu traje perfeito.
ESTRANGEIRA
Hoje não me reconheço,
nem reflexo, nem sombra.
Apaguei-me as pegadas.
Deixei que o amor me castigasse
mais que o tempo.
A cada dia, despeço-me de mim.
Eu, que me fui antes
mulher e terra,
agora resisto pó.
NÓS
Pelas pontas,
dobramos e enroscamos,
atamos.
Tudo em nós redunda,
tudo em nós aperta,
tudo em nós amarra.
Laço e fita,
seda e chita,
mansão e palafita.
ISO, isósceles,
selo de garantia
na sorte e no revés.
Ao invés,
sorrimos e choramos,
libertamos nossa voz.
Nessa mata,
madeira de lei,
somos nós.
QUERIA TE DIZER
Queria te dizer tanta coisa,
falar do meu dia,
das minhas agonias,
das alegrias também.
Queria contar das noites sem estrelas
e também daquelas tão belas,
que apenas adivinhei a brilhar
no teu céu.
Queria te mostrar a felicidade de um alô,
mesmo de longe,
de um sinal de vida,
da lembrança minha em teu coraão.
Queria te dizer o quanto basta a tua voz,
para que todas as angústias se dissipem
e as zangas e manhas se desfaçam
num piscar de olhos.
Queria correr ao teu encontro,
e falar dos pensamentos estranhos que me perseguiram,
das ausências sentidas, que me fizeram chorar,
da falta que tu me fazes.
Queria te afagar os cabelos (mesmo os ausentes...),
te fazer denguinho,
te dar todo o meu carinho,
e te fazer feliz.
Queria planejar o futuro,
ser teu presente,
teu Natal,
teu Ano Novo.
Queria que me visses Maria,
que me soubesses Amélia,
mas que me quisesses
somente a mim.
Queria Tanto...
Queria tanto um amor, súbito, devastador,
sem sentido,
que me arrebatasse,
me desmaiasse,
me amassasse o vestido.
Queria que me encontrasse,
e me observasse à distância,
como alguém da mais remota infância.
Um alguém sorridente,
de covinha indecente,
que me dissesse nos lábios
o mesmo que meu peito.
Que me batesse nas veias
o mesmo fervilhar sem jeito.
Queria tanto amar ...
Sem culpa ou lugar, caminhar na calçada
- de mãos dadas -
ser feliz na orla,
na sorveteria,
no bar,
na drogaria.
Queria tanto saber que fiz alguém feliz,
que esse alguém sente minha falta,
que me procura nos desenhos das nuvens.
E toda essa falta, esse vazio,
me assusta e me derruba
nuns braços estranhos,
de calor fugaz,
de beijos sem gosto,
de pele sem cheiro,
de pescoço sem marcas, minhas marcas.
Queria tanto ser coisa,
não ter essa saudade imensa do que está por vir,
não sentir essa vontade do amor,
essa febre do gozo,,
essa sede de toque.
Queria não ter sentidos,
ser surda de tua voz,
cega de teus olhos,
muda de teus beijos,
anestesiada de tua pele.
Me bastasse uma vida contigo.
Me bastasse um minuto de ti.
Me bastasse...
Mas não chega.
Não são teus esses olhos,
essa boca,
esse cheiro.
Não é teu esse perfume de desejo,
que vejo nas flores,
que leio nas estrelas,
que exalo na lágrima.
Que não soubesse teu nome,
que não te visse os caminhos,
que não te entendesse os lamentos.
Mas sei tanto de ti,
que nem me sei mais nada.
Queria tanto, uma vez mais,
ser tua pra sempre,
mordida por teus dentes,
a égua que te aceita,
a cadela que te lambe,
a mulher que te acompanha.
Mas nem sou sua vadia...
Queria tanto o nosso canto,
ser tua amiga,
cuidar de tuas dores,
ser tua sábia,
mais que os doutores,
tua advogada (do Diabo),
tua soldada,
soldada em tua alma,
colada em tua boca,
até que nossas palavras fossem uníssonas.
Como eu queria,
apenas por um dia,
saber que me tiveste amor.