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Anatomias de Vênus - I
Ao vê-los deslizar desnudos,
Libertos de tiras que os toldam
E de casulos de couro que os confinam,
silentes flutuando no persa
mosaico tapete do quarto,
quando em minha direção caminhas,
quedo-me a observa-los,
extasiado, constrito,
em sua perfeição decrescente
de falanges, de curvas co-sênicas,
de suavidade infinita.
Ao vê-los destacados,
Emersos da alva espuma
De sais da banheira,
Cinco delicadas cerejas
Esmaltadas, direitas, esquerdas,
Quedo-me a desejá-los,
Sequioso, faminto,
De sua textura,
De suas formas,
Inebriante absinto.
Ao ouvi-los roçar
O cetim macio dos lençóis
De nossa cama,
Que vibra, chora e lamenta
Como cordas de violino plangente,
E que, atrevidos, homótipos,
Se lançam em carícias nos meus,
Se enroscam em minhas pernas,
Mordiscam meu sexo e,
Sem nexo, meus pelos,
Não mais me contenho:
Tomo-os em minhas mãos,
Acaricio suas plantas, calcanhar,
Peito, artelhos, detalhes,
Envolvo-os em minha face,
Quedo-me a beijá-los, lento,
Ascético, venerando,
Lanço-me a sugá-los, violento,
Apóstata, fáunico, demente,
Levado ao êxtase infinito,
Em nova ereção crescente.
Anatomias de Vênus - II
De Carrara, marmóreas colunas gregas
Que em pétreas fusiformes formas
Sustentam como um capitéu,
Teu ciótico ventre amado.
Tênue penugem que as recobrem,
Como camurça a pele dourada
E que se eriça, delicada
Ao toque suave, gentil,
Da mão que as percorrem ávida.
Estradas simétricas, paralelas,
Separadas por vale profundo
Que conduzem à porta do infinito
Em que me lanço, em que me perco,
E que se abrem, amigas,
Convidativas, e que me cingem
Em um cósmico abraço,
Onde me encontro, me revolvo,
Prisioneiro avesso à própria liberdade.
Garras múltiplas,
Octópodes, que, como um polvo,
Me enlaçam, atraem, repelem,
Me conduzem por este istmo,
Em direção a tua essência,
Pedindo, requerendo, exigindo,
Alternando o bailar em celestiais ritmos,
Com doces marasmos,
Com frenéticos movimentos,
Diabólicos, desvairados, orgísticos,
Convulsivos,
Que culminam em múltiplos orgasmos.
Anatomias de Vênus - III
Se Deus não a tivesse feito assim,
Se você não existisse,
Asseguro, eu a inventaria!
E, bem mais que isso,
Eu a faria exatamente como você é...
Eu a modelaria, cinzelaria,
Esculpiria cada um de seus detalhes,
Terna, carinhosa, cuidadosamente,
Exatamente como você foi feita,
Perfeita, não mudaria nada em você.
Eu a criaria novamente
Suave enlevo, monte de Vênus,
Repousado em triangúleo jardim,
Cimótrica e com o mesmo delicado botão,
Gineceu entre pétalas perfumadas,
Gruta inscrita em sua forma oblonga,
Desafiando conceitos arquiteturais.
Seria exatamente como é,
Porta de entrada para o paraíso,
Porta de saída para o inferno da vida.
Se me fosse permitido,
Somente mudaria seu nome,
Eu a chamaria diferente;
Eu a nominaria como flor,
Já que você é tão cheirosa,
Ou então como fruta,
Já que você é tão saborosa,
Ou, até mesmo, como pássaro,
Já que, com sua plumagem colorida,
Você é livre, mesmo em sua liberdade contida.
E, tivesse eu poderes para tanto,
Poderes plenos, mundiais,
Decretaria que a chamassem sempre
No diminutivo, de forma singela,
Veneranda, carinhosa...
Proibiria que lhe atribuíssem apelidos,
E, muito menos, adjetivos,
Porque você, perfeita, amor
Você os dispensa, como uma flor
Rosada, rubra, linda como uma rosa.
Anatomias de Vênus - IV
Oh, minúscula fonte de prazeres infindos,
Infinitos, cósmicos, orgásmicos,
Que se esconde, assim, recôndito, latente,
Protegido, tímido gineceu,
Entre róseas pétalas que se abrem,
Intocadas, perfumadas!
Oh, rubro e intumescido falo ceifado,
Reprimido, castrado,
Que vibra e tine ao toque suave,
Como o mais puro cristal,
E se agiganta ao beijo linguado,
Que o acaricia, suga e envolve
E a conduz em espirais
De hipérbole
Ao gozo infinito, em espasmo final.
Quem o nomeou assim, tão estranho,
Não o chamando nome de botão de flor?
Porque o fizeram paróxi, e não oxítono,
E sugerindo plural se é único,
Pois assim soaria melhor?
E, mais ainda, porque o fizeram masculino,
Quando você é a essência do feminino,
De Vênus, da mulher amada,
Mesmo sendo o elo perdido,
Finalmente descoberto,
Durante séculos reprimido
Androginia do próprio amor.
Anatomias de Vênus - V
Minúscula gruta de prazeres infindos,
Escondido em rego de vale suave,
Entre glúteas montanhas gêmeas,
Simétricas, feitas a compasso;
Caminho que percorro, passo a passo,
Com suaves beijos, carinhos, abraços,
Onde me quedo e repouso a cabeça
Em sonhos de menino, que ora descubro,
Ao vê-la em decúbito, sobre cetins,
Em toda a extensão de seu corpo lindo,
Amado, desnudo, silente,
Latente no torpor de depois.
És soberbo, na moldura de tuas pregas
Rendadas, nunca antes tocadas,
Circundadas em cilíolos!
Pedido, implorado, negado,
Ao concedido, acariciado, beijado,
Gentilmente és penetrado
Em lingüíneo devassar;
Suave, úmido, apertado,
Cedes, pulsante, isócrono
Se faz acolhedor, relutante,
Se mostra envolvente, apertado, quente
E, afinal, quando trespassado,
Retribues com um gemido sentido,
Profundo, de prazer e de dor.
Ao contrário de teu próprio sinônimo
Monossilábico, por seres divino,
És simples, és único, primário,
Mesmo aparentando plural;
E, por seres, assim, tão especial,
Nem mesmo admites diminutivos,
Aumentativos ou superlativos,
Pois deles prescinde.
És e serás sempre, lindo, soberano,
Eternamente, simplesmente
Onírico círculo do amor.
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