A Garganta da Serpente
ajuda
 
 
  versão para impressãorecomende esta página
Leandro Duarte
fale com o autor


A Cidade e O Seu Ondular

Olhe como é lindo o vôo dos pássaros,
Veja como é leve o seu vôo.
De certo não passam desapercebidos,
Soltando seus grunhidos agudos
Oriundos do prazer de voar.

Deixe uma brecha na cortina, ou arregace-a;
Tenho que ver o céu nesse último dia.
Sempre gostei dos ruídos da metrópole,
Do cinza-azulado do firmamento poluído.

Os dias de perigo,
As fatalidades dos descuidos;
O céu sempre zeloso (às vezes zangado)
Mas insípido com os meus medos.

O assalto, a covardia, o malquerer violento,
Um chute no rabo da sensibilidade.
Ser humano já virou estereotipo
Para definir essa raça sangrenta!

Tem-se raiva, tem-se ciúme, tem-se amor.
A cidade com seu céu entrecortado
Por arquiteturas das mais diversas
Fisgou-me por suas fulguras das avessas.

A cidade cheia,
Os edifícios lotados,
A arquitetura desvairada;
Um corre-corre apaixonante.

As casas sem dono,
As camas vazias,
Os quartos/salas desolados,
O ambiente fechado, delirante.

Grandes vãos.
O cheio, o vazio.
O resto de construção,
As sobras dos espaços.

Gente por todos os lados,
A maioria: uns mal-educados.
A balburdia dos transportes,
A loucura alheia, as mortes!

Sim! As mortes sem sentido,
A vida sem sentido da massa urbana,
A organização social desumana
Dá um fim ignóbil à libido.

 

 

Andanças Infindáveis

Fez-se, pós-festivos estremecimentos corporais,
O deserto caseiro de inevitável rancor.
Desbravado é, pois, sem dó nem muito menos torpor
Como a noite anterior: de danças joviais.

Uma pseudoescalada pelo céu absorto,
Pueril tentativa de sangrar o sol nazista.
Ali, onde a vida é andada e não muito vista.
Para a sustentação do físico semimorto.

Como um calango, carrego só meu próprio caixão
Pelos faltosos plebeus a meu mando - um desacato! -
Ando e desando e estouro a raiz do mato.

Prossigo, entre crânios calados, sem o menor tesão;
Sonho e sou seres alados e imaginários
Desviando-me. Destino: novos campanários.

Aqui se quebra o soneto e transpassa a prosa de um andarilho indolente.

(13/03/02)

 

 

Assim Fez-se o Tempo

Queria uma tese para poder andar pensar falar (guardar) ao mesmo tempo; como vi um cidadão cego chupando cana assobiando uma flauta enquanto pitava e sorria ao mesmo tempo em que um sincero louco se enrolava em suas gravatas e dependurava-se na torneirinha do chuveiro, psicótico, que deixou ao mesmo tempo cartas e futuras rezas para seus filhos doloridos, e isso tudo e muito mais girando mesclando endoidando tudo ao mesmo tempo em que abro a boca e bocejo incomodado

 

 

De Resto: O Tripúdio

Na garganta de quem está vivo, o lacerar da ética da submissão sai boca a fora; um único-particular momento de congratulação, no qual todos os seres imaginários se fazem inferiores: nossos braços se erguem e rouba-nos, na indecência pura, a lembrança divina e corporal; somos uma mente saltitante, sem tempo sem documento, reunindo as feições distorcidas dos nossos, não menos esquizofrênicos, vencidos rivais. Sejam eles físicos, sensitivos ou visionários. Mas é no desatar da forca prometida, no derrubar dos leões inimigos, que o antegozo precede o gozo que por sua vez é sobreposto por um relevante desregramento emocional. E toda essa euforia individual se transpassa pelos sofismas do sorriso, o olhar estupefato, no cintilar de um novo semblante o qual, pode-se jurar, parece não conhecer nem de vista a decadência, muito menos as desilusões amorosas. Estourem, então, as cervejas no meu peito, pois quero suprir esses alegres tragos com um beijo enamorado, e se conseguir, amanhã, na substantiva ressaca em tripudia, vencer vivo; e me arrebentar nas comemorações.

(31/01/02)

 

 

A Limpidez da Alma

Meu vizinho se acaba em seu Transtorno Obsessivo Compulsivo. O porteiro, embasbacado como sempre, é cardíaco e todos os dias me vejo a achá-lo morto na guarita e eu tendo que pular o portão. O cobrador do ônibus é paraplégico e passos todos os dias por uma roda de mudos no Terminal Central, todos eufóricos e expressivos. Um dos meus professores é esquizofrênico, o resto, não passam de uns retardados ordinários que invejam seus próprios alunos; entre meus colegas de classe temos: homossexuais, drogados, falsos e verdadeiros religiosos, afortunados imbecis, jovens revoltados, e ainda: tímidos, fracos, exibidos, cansados, tristes...
Na igreja, meu padre é castrado, os coroinhas são gays e o dinheiro que escorre voluntariamente dos burros para os FDP, é mais sujo do que o meu rabo.
O taxista é rabugento e grosso, acha que merece o pagamento em dobro. Minha sogra é hipocondríaca e meu cunhado tem o coração mais mole do que o pau do meu avô, sofre de tão cândido e eu sofro junto. Um dos meus melhores amigos sofre do mal-de-não-sei-o-quê o que me causa duzentos pesadelos por noite, um mais trágico e cômico do que o outro.
A esquina da daqui está amontoada de putas e meu cortiço é quase uma boca de fumo. Meu patrão é um câncer ambulante e tem um nariz monstruoso. Meu irmão é forte como um touro e eu, seco como um faquir; minha mãe destrói o Novo com a leitura diária de livros de alto-ajuda e misticismo, quase uma maga branca, quase uma fada esquecida, um anjo que ainda vive e que só peca em tentar decifrar os sonhos; meu pai morreu de Enfisema Pulmonar, e eu fumo vinte cigarros diários; minha vô é diabética e minha mulher era chocólatra.
A lepra já não é tão destrutiva, mas o álcool a cada dia arrebenta mais a nossa raça. Alcoólatra ou Maconheiro? Os dois ou um Santo? A cada passo: uma deformidade exorbitante. A cada ciclo respiratório: um corpo oco que vai ao chão, sem alma, sem fluidos, lotado de micróbios.
Quem quer ser limpo?! O cheiro importa? E o intestino? E o instinto?
Obrigado, mas estou muito bem e acho tudo muito comum: do sadismo ao incompreensível voto de castidade, claro que com uma tendência particular para extraordinário.
Mandaram que eu me calasse, que me limpasse e fosse correto.
Mas eu, realmente, não entendi.

566 visitas desde 8/07/2005
  menu   novidades nossos números ajuda
  a b c d e f g
h i j k l m n
  o p q r s t u
    v w   x y z

Legenda dos ícones:
  novo autor / novo poema
  autor atualizado
  autor em domínio público
  autor falecido
  trabalho premiado

última atualização: 01.12.08
1924 poetas hospedados

Esta seção está sofrendo ajustes para ampliar o espaço de poemas por autor. Por isto, você encontrará páginas no novo formato e páginas modelo antigo. Contamos com sua compreensão e pedimos desculpas pelos transtornos.

Copyright © 1999-2008 A Garganta da Serpente
Direitos reservados aos autores  •  Termos e condições  •  Fale Conosco www.gargantadaserpente.com