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A Cidade e O Seu Ondular
Olhe como é lindo o vôo dos pássaros,
Veja como é leve o seu vôo.
De certo não passam desapercebidos,
Soltando seus grunhidos agudos
Oriundos do prazer de voar.
Deixe uma brecha na cortina, ou arregace-a;
Tenho que ver o céu nesse último dia.
Sempre gostei dos ruídos da metrópole,
Do cinza-azulado do firmamento poluído.
Os dias de perigo,
As fatalidades dos descuidos;
O céu sempre zeloso (às vezes zangado)
Mas insípido com os meus medos.
O assalto, a covardia, o malquerer violento,
Um chute no rabo da sensibilidade.
Ser humano já virou estereotipo
Para definir essa raça sangrenta!
Tem-se raiva, tem-se ciúme, tem-se amor.
A cidade com seu céu entrecortado
Por arquiteturas das mais diversas
Fisgou-me por suas fulguras das avessas.
A cidade cheia,
Os edifícios lotados,
A arquitetura desvairada;
Um corre-corre apaixonante.
As casas sem dono,
As camas vazias,
Os quartos/salas desolados,
O ambiente fechado, delirante.
Grandes vãos.
O cheio, o vazio.
O resto de construção,
As sobras dos espaços.
Gente por todos os lados,
A maioria: uns mal-educados.
A balburdia dos transportes,
A loucura alheia, as mortes!
Sim! As mortes sem sentido,
A vida sem sentido da massa urbana,
A organização social desumana
Dá um fim ignóbil à libido.
Andanças Infindáveis
Fez-se, pós-festivos estremecimentos corporais,
O deserto caseiro de inevitável rancor.
Desbravado é, pois, sem dó nem muito menos torpor
Como a noite anterior: de danças joviais.
Uma pseudoescalada pelo céu absorto,
Pueril tentativa de sangrar o sol nazista.
Ali, onde a vida é andada e não muito vista.
Para a sustentação do físico semimorto.
Como um calango, carrego só meu próprio caixão
Pelos faltosos plebeus a meu mando - um desacato! -
Ando e desando e estouro a raiz do mato.
Prossigo, entre crânios calados, sem o menor tesão;
Sonho e sou seres alados e imaginários
Desviando-me. Destino: novos campanários.
Aqui se quebra o soneto e transpassa a prosa de um andarilho indolente.
(13/03/02)
Assim Fez-se o Tempo
Queria uma tese para poder andar pensar falar (guardar) ao mesmo tempo; como
vi um cidadão cego chupando cana assobiando uma flauta enquanto pitava
e sorria ao mesmo tempo em que um sincero louco se enrolava em suas gravatas
e dependurava-se na torneirinha do chuveiro, psicótico, que deixou ao
mesmo tempo cartas e futuras rezas para seus filhos doloridos, e isso tudo e muito
mais girando mesclando endoidando tudo ao mesmo tempo em que abro a boca e bocejo incomodado
De Resto: O Tripúdio
Na garganta de quem está vivo, o lacerar da ética da submissão
sai boca a fora; um único-particular momento de congratulação,
no qual todos os seres imaginários se fazem inferiores: nossos braços
se erguem e rouba-nos, na indecência pura, a lembrança divina e
corporal; somos uma mente saltitante, sem tempo sem documento, reunindo as feições
distorcidas dos nossos, não menos esquizofrênicos, vencidos rivais.
Sejam eles físicos, sensitivos ou visionários. Mas é no
desatar da forca prometida, no derrubar dos leões inimigos, que o antegozo
precede o gozo que por sua vez é sobreposto por um relevante desregramento
emocional. E toda essa euforia individual se transpassa pelos sofismas do sorriso,
o olhar estupefato, no cintilar de um novo semblante o qual, pode-se jurar,
parece não conhecer nem de vista a decadência, muito menos as desilusões
amorosas. Estourem, então, as cervejas no meu peito, pois quero suprir
esses alegres tragos com um beijo enamorado, e se conseguir, amanhã,
na substantiva ressaca em tripudia, vencer vivo; e me arrebentar nas comemorações.
(31/01/02)
A Limpidez da Alma
Meu vizinho se acaba em seu Transtorno Obsessivo Compulsivo. O porteiro, embasbacado
como sempre, é cardíaco e todos os dias me vejo a achá-lo
morto na guarita e eu tendo que pular o portão. O cobrador do ônibus
é paraplégico e passos todos os dias por uma roda de mudos no
Terminal Central, todos eufóricos e expressivos. Um dos meus professores
é esquizofrênico, o resto, não passam de uns retardados
ordinários que invejam seus próprios alunos; entre meus colegas
de classe temos: homossexuais, drogados, falsos e verdadeiros religiosos, afortunados
imbecis, jovens revoltados, e ainda: tímidos, fracos, exibidos, cansados,
tristes...
Na igreja, meu padre é castrado, os coroinhas são gays e o dinheiro
que escorre voluntariamente dos burros para os FDP, é mais sujo do que
o meu rabo.
O taxista é rabugento e grosso, acha que merece o pagamento em dobro.
Minha sogra é hipocondríaca e meu cunhado tem o coração
mais mole do que o pau do meu avô, sofre de tão cândido e
eu sofro junto. Um dos meus melhores amigos sofre do mal-de-não-sei-o-quê
o que me causa duzentos pesadelos por noite, um mais trágico e cômico do que o outro.
A esquina da daqui está amontoada de putas e meu cortiço é
quase uma boca de fumo. Meu patrão é um câncer ambulante
e tem um nariz monstruoso. Meu irmão é forte como um touro e eu,
seco como um faquir; minha mãe destrói o Novo com a leitura diária
de livros de alto-ajuda e misticismo, quase uma maga branca, quase uma fada
esquecida, um anjo que ainda vive e que só peca em tentar decifrar os
sonhos; meu pai morreu de Enfisema Pulmonar, e eu fumo vinte cigarros diários;
minha vô é diabética e minha mulher era chocólatra.
A lepra já não é tão destrutiva, mas o álcool
a cada dia arrebenta mais a nossa raça. Alcoólatra ou Maconheiro?
Os dois ou um Santo? A cada passo: uma deformidade exorbitante. A cada ciclo
respiratório: um corpo oco que vai ao chão, sem alma, sem fluidos,
lotado de micróbios.
Quem quer ser limpo?! O cheiro importa? E o intestino? E o instinto?
Obrigado, mas estou muito bem e acho tudo muito comum: do sadismo ao incompreensível
voto de castidade, claro que com uma tendência particular para extraordinário.
Mandaram que eu me calasse, que me limpasse e fosse correto.
Mas eu, realmente, não entendi.
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