A Garganta da Serpente
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Landim Neto
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Vaga pressa

Dentro de sua cela jaz o velho escrivão
pena na mão, a registrar versos velhos
enrugados reflexos de seu espelho
já sem anseios, perspectivas ou noção.

À luz trêmula de uma vela ele força
insistentemente a sua decrépita visão
tão míope e fraca que o tempo se apossa
dele como sangue a sorrir no chão.

E antes que amanheça ele escreve com vaga pressa
correndo com letras ruins e mãos tremendo
o Escrivão completa o seu poema sabendo
que o sol destruirá a (de trabalho) sua peça:

- A valiosa vida.

 

Saudade, Luto e Medo

Todos os malévolos pergaminhos
dos meus poetas mortos
repousam silentes e frios na mesa.

Eu, quieto à mesa, degusto o silêncio deles.
E lembrando-me calmamente deles,
decomponho-me em lágrimas amortalhadas.

As capas duras ali deitadas sonham
onde estão todas as linhas por onde meus olhos passearam.
enquanto os raios da janela passeiam por elas
e eu, com resígnio, sinto o sono me selar.

As palavras sábias de antes;

"Libertar-se-á nunca mais"
"A consciência humana é este morcego"
"Fora da Ordem traça nossos destinos"
"tal como a voz de um morto"

mandam-me lembranças aos nervos
dolorosas como tumores epilépticos
de saudade, luto, e medo.

 


Caminhos do Dia Sombrio

(dedicado a uma grande e velha amiga)

Marejam-lhe lágrimas
Inconscientes. É quanto estás sóbria.
Despojos na sua mesa de estudo
-Infelizes de não terem mais o mesmo gosto.
Alcança mais uma vez o teu
Narcótico amável.

Minha triste criança
Investes em todas as direções
Diversões fúteis de fundo falso
Incapazes de remediarem
A Ferida que lhe nasceu na alma
Na sua pobre alma.

Mas como fazermos?
Incondicionais são os tempos
De repente o sol nasce
Intransigente e nos força a viver.
Atrozes forças nos empurram. Por isso
Nós nos movemos por caminhos de engano fácil

- Esperando a noite chegar.

 


Canção Outonal

(Inspirado em "Canção de Outono" de Paul Verlaine)

O pranto cadenciado dos violoncelos
em nossa memória
notas lentas, solitárias, pesarosas,
fere-me a alma
com um langor agudo
sem igual

Quieto em meus pensamentos
eu me comovo com um Silêncio
o vazio sonoro do espaço
e então choro
calmamente em minha sala.

Ao acariciar a grama que nasceu ao teu redor
into o frio da mesma melancolia
dolorosa
e fraco de guardar em paz o que sinto
eu choro mais
e deixo-me levar por um vento Mau
que me agita, gira-me e me leva para muito longe
sem rumo, rápido e destrutivo
tal como se eu fosse uma folha morta.

 

 

Noite de Solidão

Eu acordei de um pesadelo
com medo, sozinho.
O meu único consolo
era a música do rádio
que eu esqueci ligado.

A música mais antiga
e mais tocante da minha vida
era agora a minha melhor amiga
por ser o único ser
que estava comigo naquele momento,
depois de tantos anos
sem ouvi-la.

A primeira vez que a escutei
também era noite densa
e eu também estava aflito:
Sozinho no meu quarto.

Sem eu esperar, sem que eu pedisse
essa música ecoou em meu cérebro;
essa mesma música.
Ela acalmou-me e me secou as lágrimas.

Era uma música tão simples...
tudo o que nela havia era o que eu sentia.
Ali estavam todas as palavras que queriam
sair da minha boca
mas ditas por outra pessoa.

Foi isso o que acalentou:
Saber que eu não estava sozinho
no Universo.

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