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eis o meu pássaro que fala
eis o meu pássaro que fala
à rama húmida do teu cabelo
gosto de passar o pêssego
de uma mão para a outra
como os teus seios em leves
sinais e segurar a ameixa entre
os lábios, os caroços de ameixas
mordendo os dentes e recolhendo
á água da nascente.
quero-te como a pedra de Fléton
para quem persiste no amor
profundo.
As gaivotas já alinham
na tela da moldura da mesa
encostada ao mar do teu coração
esvoaçante.
os pincéis descansam nas suas
penas e as cores ternas do fogo
beatificam no aroma
de hortelã ,o poema
sinto a quente brisa do sul
gosto do chilrear dos pássaros junto
à porta onde te espero
as cerejas já em calda alegram
o que é vivo e luminoso
a alva traz na boca a saudade
das maçãs do teu rosto
angular o teu corpo é redondo
a franja da tua montanha arável
a saia curta, andas e escrevo
sem olhar.
venho de bater à tua porta
ao maior abraço de uma folha
seca até ao berço do nascimento
os meus dias turbulentos inquietam-te
nas açucenas da tranquilidade
sereno passeio nas falésias como
a noite regressa .
os teus olhos têm silêncio, os braços não
das nuvens do meio têm mil águas
em baixo vou contemplando
o meu gosto pelo fruto dos cerais
alegremente confiando no luar
e no seu perfume de flor de manga
Íris desperta em mim as rosas da carne
Vermelhas como as papoilas,
amo nelas o vapor da água
inunda-me os braços e o rosto
humedece as pernas lentamente
do dia do trabalho mais feliz
a iluminação anuncia a espessura
da sílaba inicial na musica extrema.
ouvi as canas submetendo-se ao vento
a tarde fica tão gentil e elegante no teu vale
algures quero ainda viajar
quando os teus mamilos ganham a forma
das rolas de chocolate e gelo frágil
que me arrepia como quem regressa à
terra para comer as raízes
Praias do Sado 15 de Julho 2005
Algumas Tulipas
(a Eugénio de Andrade)
não há já palavras meu amor
entre o corpo, a voz e o olhar
na flor do coração.
sonho como o vento, passa
sentimentos prováveis
num laço.
jóias bizantinas,iconografias,
"é dentro de ti / que toda/
a música/ é ave"(1).
a terra dos grandes glaciares
onde a pele ganha matéria
nas suas camadas profundas
uma linguagem luminosa
magia rosa cor de carne,
em ritmo quente,na pureza
do teu silêncio.Olhares
jovens povoados com corpos.
silhuetas rock (Doors)na praia
de tulipas só algumas
que me tiram as palavras
da ponta da língua.
PORTO DE CASA
os cães negros devoram-se dentro de mim
num sinal de ascensão só o porto é a casa
nas espessas florestas, uma travessia
possível e terrestre com um olho
de coruja.
no oceano as ágeis canoas do amor
nos estreitos canais as lanchas
nos olhos transparentes,ainda
um saveiro no seu colo
a palma da mão solar
sempre no teu ombro.
"TRANSFORM ZONE"
Os nossos infantes
Aos artistas cariocas Ana Laet ,
Liliana Leiner,Mara Martins,
Marc Van Lengen e Rachael
Korman e aos portugueses
Vera Mantero, Nuno Rebelo e
Vítor Rua
Os que embarcam são os infantes na sua volta ao mundo
para os castelos dos campos de batalha,a espada brilhante
Iminente o sopro, o momento, "o anjo exterminador"
a arte da fuga,o ser capaz de escapar,no dia a dia à
flor de aço da dificuldade.
O cenário desenha a narrativa com o mar ao fundo
E um colar de conchas e pérolas num rodopio precioso
pronto para as lutas o escritor ao sol tem o domínio
da técnica e a essência da arte como vocação, a casa
da poesia como lugar que acolhe o pronto-a-pensar
alternativo para uma fantasia fresca.
Queria pintar contigo amor todo o jardim
com pássaros albinos demorando o tempo nos
seus folículos onde nascem as penas .Queria
tocar o âmbar, abraçar as árvores devagarinho
e sentir a seiva e a resina e ouvir o pica-pau-
de bico de marfim ("campephilus principalis")
no Arkansas.
Gosto do grasnar de um ganso quando graça
canta as agruras deliciosa e ágil, pisa as uvas,
cria o vinho , antes da filtração das almas danadas
antes de ser decantado, qual rubi de maracujá
"cabeça cheia de pássaros"
caminho devagar até aboiar
o barco.
SUSCENTABILIDADE
escuto e observo o teu comportamento lábil
as flores do teu umbigo, as florestas bravas
dos risos e da água.
quem fala da aridez e da planura esquece as ondas
tom rosa púrpura, sussuro de vento nos teus seios
apesar da erosão do tempo, desenho o recorte
dos teus pés, na nudez da terra húmida.
Viajo na rudeza da terra seca de um castanho
uniforme na talha poliédrica do poema
da suscentabilidade.
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