A Garganta da Serpente
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Jorge Ricardo Dias
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Estilhaços

Logo ali em frente alguém me olha intrigado
Todo espelho mostra um estranho universo
virtual, mas tudo nele assume o seu reverso
Sendo assim, quem sempre me aparece do outro lado?

Fascinante mundo imerso numa surda calma
Feito um filme mudo com menor velocidade
Se tem luz e cor, se move e tem profundidade
diz então quem é o meu dublê de corpo e alma?

Os cenários gêmeos travam louca relação
Se acontece aqui, ali ocorre a imitação
Quem será o vigia que me quer impor a lei?

Sem temer os tais dos sete anos de fracassos
fiz o meu juiz de vidro em muitos estilhaços
Onde está o sangue do intruso que alvejei?

 

 

Tempus Fugit

O tempo é um trilho e nele a vida corre
num trem que é sempre breve na estação
O tempo cronológico é ilusão
Se mato o tempo a vida é que morre

Tento retê-lo, escorre-me entre os dedos
Fotos que são de um tempo congelado
em naturezas mortas lado a lado
O tempo é um diabólico brinquedo

A vil locomotiva não espera
e quem não embarcou fica pra trás
refém de um deus cruel que apressa as eras

No afã de eternizar o que é fugaz
sou Dorian Gray no espelho da quimera
a condenar-me à fome mais voraz

 

 

Combate

Múltiplos quadrados
Casas e caminhos
Armam-se os dois lados
Séquitos de pinho

Títeres movidos
tragam território
Mortos e feridos
mas sem falatório

Deuses na regência
Mestres do sorrate
Lúdica ciência

Auge do combate
Dama da insolência
Rei em xeque-mate

 

 

Morfeu

Mais forte que a vontade, em temporária morte
disfarça-se o bondoso deus que traz o sono
E o corpo na ilusão de ser da alma o dono
resiste em vão ao negro véu que rouba o norte

O claro da manhã que tudo recomeça
é sopro de frescor e o morto ressuscita
sorriso de criança ingênua que acredita
que o mundo vai cumprir promessa por promessa

Ninguém pertence nem ao menos a si mesmo
Não há ciência ou arte que armazene o fogo
Perguntas são cometas viajando a esmo

Vigília e sono enfim são naus da mesma frota
num mar sem inimigos, vítimas, derrotas
A vida tem mistério mas não é um jogo

 

 

No frontal

No final das contas
tudo se defronta
tudo se converte
na grande questão
Tanta solidão
bem na multidão
Fino navegar
Precário viver
Se o devir é louco
acha ouvidos moucos
Temos lido pouco
e vivido menos
Sonhos que eram grandes
hoje são pequenos

Rota de si mesmo
navegando a esmo
singra o remador
sangra a sua dor
que não compartilha
Ilha entre ilhas
gélidos albergues
muros de icebergs
Viking pós-moderno
viu que internamente
é de gelo eterno
esse nosso inferno
de ranger os dentes

Mas a nossa escolha
é a Quinta folha
Do trevo da sorte
Onde só tem quatro
Nesse anfiteatro
de Comédia Grega
ou Tragédia Inglesa
Shakespeare em Atenas
sei que só e apenas
o que arde cura
incendeia as tardes
faz nunca estar cedo
nem jamais ser tarde
Nos enche de medo
sem sermos covardes

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última atualização: 01.12.08
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