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CARNAVAL COM PIZZA
Uma vez inventaram de fazer festa
Sem motivos para festejar
Largaram trabalho, largaram tudo
Pararam até os relógios e os computadores
As escolas foram lacradas
E o plenário entrou em recesso
Toda a Terra parou
Mobilizou-se por vários dias
Só não parou para pensar
Que havia mais motivos para chorar
Do que para beber e dançar
Formou-se uma grande pizza de suor e álcool
Fermentou e cresceu, mas não cresceu para todos
O vendedor de cachaça, o mendigo que dormia na porta
O padre da igreja ao lado, o professor sem serviço
O torneiro mecânico que catava papéis
Para comprar um pastel de feira
A pizza não matou a fome de ninguém
Pelo contrário, poucos comeram
Levaram-na aos engravatados
Mas eles também estavam em carnaval
As crianças nascidas nisso vão passar fome
Enquanto os engravatados dançam a dança do ano
Afinal, é em pizza que tudo acaba
MAL-AMADO
Sou mal-amado, é verdade
Contudo não sou resignado
Encarno o espírito inconformado
A arte de não concordar
De resistir a esse mesquinho desígnio
A esse destino corrupto
Condenado à derrota
Apaixonando-se sempre pela pessoa errada
Sendo sempre desprezado
Passado para trás
Condenado sempre ao sofrimento
À derrota e humilhação
Derrotado, azarado, humilhado
Ridicularizado, limitado, mal-amado
Enganado por uma
Desprezado por outro
Essa falta de amor, de paixão
Chega a ser revoltante
Enquanto todos triunfam
À mim é reservada a amarga derrota
Derrotado, azarado, humilhado
Ridicularizado, limitado, mal-amado
Sempre tentando conquistar
Sempre dando com a cara nas barreiras
De aço impenetráveis
Eu não tenho direito a esses privilégios
A mim só resta a patética resignação
E alguns goles da maldita inveja
Não posso amar quem amo por causa de um mero detalhe
Não tenho esse direito
O que fazer agora? Quo vadis?
Nada. A única coisa a fazer é tocar um heavy metal
Derrotado, azarado, humilhado
Ridicularizado, limitado, mal-amado
15 DE AGOSTO
Chega um momento em que as esperanças parecem mortas
Figuras inertes
Chega um momento em que as vozes do futuro se calam
Silêncio perturbador
Chega uma hora em que a luta contra o mundo dá lugar à fadiga
Quando os ombros que suportam o peso
Rangem fatigados e esgotados
Em um dia tudo acabou
Nada de nada restou
Mas uma hora o dia há de amanhecer
E será o despertar desse longo sonho
Numa madrugada fria
Sombria e nebulosa
Descobri que amar é só uma mera possibilidade
Ah, o amor
A velha arma dos poetas
Nada
Somente mais do mesmo
Uma arma letal
Ouça esse manifesto:
Deixai os poetas em paz e pare de provocar guerras
Nos corações dos trouxas
Amar, mera possibilidade
Mera especulação
Amar é
Caminhar com os pés descalços, calçados com espuma de sabão,
Sobre o painel de controle de ogivas nucleares
COMO UM ASCETA SEM NOME NEM NAÇÃO
Todas a mística do Universo, eu sei, conspira contra mim
À cornucópia do Acaso e das circunstâncias
Onde a Fortuna,
Puta safada, vagabunda devassa
Abre as pernas à casta dos superiores abençoados
De nada me adianta a oração dos livros sagrados, nem os cânticos
mágicos
Desenhar mandalas, entoar mantras, religar-me à energia, pura tolice
Obra de arte de invencionice
Não procuro mais a divindade do totem
Pois sei que o Deus do cosmos não me escolhe jamais
As portas do Nirvana estão com o sinal fechado para mim,
Um monge fracassado
Há perigo nos cantos do templo
Eles venceram e cumpriram as profecias
Do que estava escrito no tabernáculo
Não há perspectiva da Nova Era
Nossos deuses hoje são terroristas
Assustam-nos com fantasmas
Manifestações macabras e aterrorizantes
O mundo está cheio de heróis corruptos
E nós somos hoje os vilões torpes que eles combatem
Ninguém mais conhece os limites da maldade
A intolerância é uma Deusa Vagabunda
Os lótus apodrecem no canteiro do meio da avenida
Meditando no templo em ruínas
O vento tenta me derrubar com várias rajadas
Cortar-me com pingos de água laminada
O relâmpago afunda-se nas minhas pálpebras
Tenta quebrar a minha concentração
Eu continuo com fé
Mas a Voz que eu procuro se recusa a me dirigir a palavra
A REVOLTA DAS EMBALAGENS
COMPANHEIROS, UNI-VOS
EMBALAGENS REJEITADAS DO UNIVERSO TODO, UNI-VOS
O dono da venda
Que tinha medo dos capitalistas desde a época do Jango
Correu para discar o 190
Mas a linha já tinha sido cortada pelos revoltosos
As embalagens cansaram das injustiças
Tremiam de indignação ao ver que os recheios mais ordinários
Gozavam de fama e luxo de reis
Enrijeceram, mas sem perder a ternura
Dos feios sentimentais que tanto sensibiliza as pessoas
Os excluídos começaram então o caos
Tomaram a venda, a rua, o quarteirão, e logo depois a cidade inteira
E começaram a escancarar as embalagens
Latas, sacos de papel, cápsulas de plástico, folhas-de-Flandres
Encontraram provas estarrecedoras:
Muita ervilha podre
Muito leite azedo
Muito milho carunchado
Muitas bolachas moles e biscoitos esfarelados
Muita conserva esverdeando putrefata
O nojo dos fregueses foi enorme
Passaram eles a abrir cada embalagem
Mas se esqueceram
De abrir a própria e olhar lá dentro da alma
Antes de jogar alguém no lixo
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