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ANOTAÇÕES PARA AMANHÃ
(Para Francisco Fernandes)
Saber
ver mais além onde está o âmago
da pedra
Contar
a chama que arde na palavra escrita
aguardando por ser livre
Congeminar
o alcance do âmago das coisas novas
entrando no silêncio das casas
Avançar
para a amplidão dos prados e dos mares
espreguiçando a luz altaneira
dos conhecimentos
Cobrir
a escuridão com os raios de sol do dia
guardados no magma do coração
por toda a vida
Aguardar
a repetição das ondas dos tempos
insanáveis no rebuliço dos alicerces
de todas as pedreiras
Esconder
o fechar dos olhos aos livros novos
às adoradas páginas ainda por abrir
com a negra vergonha da ignorância
Descansar
com o dever cumprido no quotidiano
das almas pelo semear da sabedoria
nos jardins ressequidos
Deixar
crescer a flor no cimento dos pátios
cercados pela sombra dos muros
a cada folha do calendário
Descansar
o corpo nos braços apertados da amada
esperando que um dia amanheça
onde nunca houve madrugada
(02.04.04)
CONDIÇÃO DE SER PEIXE
brotas da água
e transformas-te em pedra
navegas num mapa
desconhecido
seguindo estranhos apelos
em teu sangue frio
adormecido
no lugar onde falta
um coração
colocas um pedaço de mar
a cascata de um rio
provavelmente a aflição
de não teres pés
para andar
brotas da água
e transformas-te em pedra
parado ficas na impavidez
da aventura paleontológica
de fóssil sem vida
decorando a terra
é a inutilidade da condição
de seres peixe
perante o silêncio
do suspiro que afogas
o mistério
do espanto eterno
que a pedra
encerra
CANTO DO MENINO
ACABADO DE ACORDAR
abre-me os braços mãe
e aconchega-me ao peito
derrama sobre mim o teu amor
pega nos meus dedos e aperta-os
aquece-os com o teu frio
e sorri junto aos meus ouvidos
traz-me um soslaio dos teus olhos
até ao rio das minhas lágrimas
e sacia a fome de me teres no regaço
acende a luz no arfar da palha
e cala o vento na boca do estábulo
para poder escutar o coração dos homens
pede à noite que perdure sob a estrela
e acalma o pai no seu choro de alegria
por não ter desejado a minha morte
sente o luar pousar na minha testa
e ora para que nunca deixe de ser madrugada
onde as portas se mantiveram fechadas
assim teremos sempre tempo
para ganhar o pó
da futura caminhada
(22.12.03)
A PALAVRA É UMA BORBOLETA
A palavra pode voar
espairecer por aí como uma ave
solta e branca
desprendida de sóis
e ninguém dar por ela
no silêncio das sombras
da manhã
A palavra se não bate asas
oculta-se nos tectos
mais antigos das casas
e sopra imagens imperceptíveis
num rosário de recordações
que se esfuma nas tardes
em sons inaudíveis
Se a palavra quisesse
serenava-se
no coração dos homens
e petrificava-os para os atormentar
em sonhos permanentemente iguais
marcando-lhes a memória
com os sinais
dos dias desencontrados
e sempre na penumbra
da noite seguinte
A verdade é que a silhueta da palavra
assusta a cidade
mesmo quando apenas visita os telhados
para lhes abençoar o sono
A palavra é como uma borboleta
esplendorosa
esquece que já foi larva
embora hoje se aparente
com uma rosa
A CIDADE CHAMA POR MIM
A cidade chamava pelo meu nome e a noite ouvia
e alguma coisa ofegava dentro de mim nas calçadas
de pedra nua e cinza como a alma dos vulcões extintos
Não tenho a certeza se o meu nome era o da cidade
que me chamava alertando-me para o apelo das ribeiras
no canto vigoroso das invernias ensaiado entre as penedias
O que sei é que o meu nome estava escrito nos telhados
e escorria até ao chão como um verme vivo e ondulante
caminhando em direcção às luzes na busca do seu dono
E o nome crescia como o coração dos planetas junto do sol
ensaiando outros passos estabelecendo ritmos cobrindo
as sombras escondidas sob as ombreiras das portas fechadas
Só poderia ser o meu nome o do chamado da cidade e a noite
era minha pertencia-me e a mais ninguém e nascia dentro de mim
e o chamado tornou-se tão irresistível que esqueci donde vim
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