A Garganta da Serpente
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Jaqueline Saraiva
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FinalMente

Vou deixar-te agora
Tanto faz
Se o teu coração chora
Se a razão foi embora
Suplantando a emoção
Não me importa mais
Se o teu sorrir já é engano
O chorar já não me compraz
Não quero mais
Cansei do sofrimento
A retalhar minha poesia
Serei capaz de ir
Além da fantasia
Seguirei só
Com meus ideais.

 

 

Cientificar

O que significa a vida?
O que significa a vida de uma mulher?
Mulher a qual,
A própria vida por ela passa...
E ela... como passa pela vida?
Como a sociedade cuida da co-autora da vida?
Mulher...
Que sonha, luta e vibra com a chance de melhora
Que busca a independência
E muitas vezes        sozinha
É o sustento da própria prole
Que o sorriso se faça         a te enfeitar a face
Enquanto o coração em neblina
Vive em cárcere
Tua memória
Um dia viverá
Mulher...
Que um dia menina
Sonhou o amor
E que com ele,
Tudo suportaria
Hoje, mulher - madura
Ainda resta-te um punhado de rimas
O sorriso e a fome dos filhos
O que fazer dos teus sonhos?
Das tuas noites mal dormidas
Debruçada entre panelas, berços e livros...?
Alguém... por favor
Diga-me que estou errada
Mas, prove!
Não acredito mais em palavras...
Diga... rediga
Que a realidade não é tão dura
Quanto parece
          Esquece...
Esquece as mágoas
Refaz teus sonhos
Que novo dia amanhece
... E teus filhos .............acordarão
Pedirão por comida
A despensa         a te fazer chorar vazia
E você mulher
Terá o pouco caso        por companhia
Sentimentos...
Revolta         perplexidade........medo
Pairam sobre nossa          casa/cidade/retina/rotina
Nossas filhas...mães....tias...amigas...primas
Sendo estupradas à luz do dia
Violentadas em sua essência
Dignidade         sonhos         vida
         COVARDIA
Quando acordará o Povo
E tomará seu lugar nessa tribuna?
O que fizeram do voto teu?

 

 

Mesa de chá

Na mesa de chá...
Serviram-se de poesia
Repartiram o pão das idéias
Provaram do chá do intelecto.

Na mesa de chá...
Sorveram seus amores
Diluíram seus rancores
Macularam suas mães...

Degustaram lágrimas em tons pastéis.

Na mesa de chá...
Revogaram-se leis
De sentimentos inconfessos
Sem rota, sem trajeto.
Nada pré-estabelecido.

Na mesa de chá...
Somos donos de nossa xícara.
- Torrões de açúcar? Gotas de limão?
Balanço a cabeça e respondo:
- Não, obrigada! Mais lápis e papel!

 

 

SerTão

Da Religião...
que renova os sentidos
olfato, paladar, tato, audição, visão
Vida.

Da reabsorção do leite
materno         morno
remédio do corpo pequeno
Vacina.

Apurar os ouvidos
burilar os sentimentos
despertar em si a capacidade
Ser.

Desfazer dos olhos      a neblina
do coração a não compaixão
da dor do outro que não me chega
Morte.

Chuvas de agulhas a arranhar a face
braços intumescidos    esforço    labuta
Lágrima.

A religar sentimentos    nervos de aço
sangue frio    suor gelado    escorrendo pelos músculos
mãos crispadas na ferradura
Instinto.

Bate o martelo     aquieta a foice
pedra polida     mato cortado
mais querosene nessa lamparina
Transfusão.

Centelhas na madeira...
pinga na garrafa
enrola a palha    queima o bigode
Paz


Chora a viola      hora de folga
relembrar a vida       divagar na fumaça do pito
Oração.

 

 

Cinzeiro

Meu cinzeiro está cheio
de guimbas         de cinzas
de pensamentos vagos

Meu cinzeiro está cheio
quase transbordando
de cinzas          restos
de cigarros e de lembranças

Cinzeiro cheio
tal qual colcha de retalhos
Um pouco de cada tecido
tecido com o fio da vida
rupturada pelo fio da navalha

Sentimentos

No meu cinzeiro não tem
farelos
nem papel de bala
Cinzeiro não é lixeira!
Embora cigarro e certos sentimentos
façam parte do mesmo lixo
E
MATAM!

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