|
Bidimensionalidade
Eu tinha virado o mundo de ponta-cabeça
Procurando um novo ponto de vista
E não consegui controlar a risada
Ao perceber o quão tolo eu estava
Olhando para um mundo que não tinha mudado
Mas era eu mesmo que estava virado
Nada é claro o bastante
Nada é claro o bastante
para quem não quer entender
Já que ninguém entende
para que ter sentido?
Já que não tem sentido
para que existir?
Deixe-me viver
numa palavra qualquer
que seja apagada
que ninguém leia
que ninguém perceba
Ajude-me a fingir
que me importo com algo
pois preciso impressionar
pessoas que eu finjo me importar
Que não me deixam falar
Que não me deixam respirar
nem um suspiro final
Está chovendo lá fora
Não importa a que hora
Está sempre chovendo lá fora
E os diáfanos estão desafinando
Eles não são os únicos
a achar que algo está errado
Mas estão errados
O mundo está diminuindo
e eu estou ficando claustrofóbico
Está chovendo lá fora
e eu soco as vidraças
até cortar meus punhos e impulsos
E sou sugado para o infinito
Aquele lá depois da esquina
Onde não serei triste
Onde não serei nada
Está tudo aqui
Tudo aqui o que preciso
Até as facas das palavras
pra que eu possa me cortar
Menos minha liberdade de perder
desistir e morrer
Estou ouvindo a música do meu texto
Estou ouvindo um morto filosofar ao meu lado
Estou sentindo enciclopédias ciclópticas
dizendo tudo que existe de cienciável
Estou sentindo o cheiro podre por baixo do perfume
O lixo tóxico de fingir ser belo e bom
Também há flores dizendo que são gente
Mares tentando imitar monstros
E luzes achando que são anjos ou idéias
Estou provando um pouco da maldade de cada um
Tomando sem moderação a loucura de todos
Estou sentindo mãos por cima das cabeças
e outras mãos rasgando o contra-cheque do pão
Estou ouvindo a cor do cheiro da solidão
e comendo a dor do som morno e raivoso
A vergonha de estar em branco
foi substituída por um plágio original
Pálido de tão azul
Renega o fim
Deixa a morte à própria sorte
Pois ninguém quer saber disso
Quer o "a" da vida e não do mortal
Quer pensar só na frase final
A cobra
Traiçoeira como a língua do diabo
Ela entrou, negra, na noite brilhante
Do quarto escuro dos amantes
E como se encontrasse seu caminho
Pelas colchas e cobertores
Mordeu-lhe exatamente a maçã
Ele nem sequer pode gritar
Apenas esticar o braço duro
Como se tentasse alcançar a vida
Perdida no quarto escuro
A amante acorda confusa
Apertando seu corpo, ambos nus
E vê seu rosto desfalecer
Como uma pedra atirada ao lago
E a marca de ferida, sangrando
Cravando em sua alma eternamente
A lembrança da perda e da solidão
|