A Garganta da Serpente
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Hugo Araújo
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Consumação

Queria eu, como vidro
por completo me quebrar
quando caísse...

Queria eu, como detrito
além do pó me esmiuçar
quando ruísse...

Queria eu, com um grito
de todo me dissipar
quando insurgisse...

Queria eu, contrito
não poder voltar
quando pedisse...

Eu tornaria a me quebrar
se repetisse...

Queria eu poder voar
e, contra o vento,
contra o ar
q'eu sumisse no atrito...

(19/01/04)

 

 

Eu a torre e o mar ou O mar e amar

Acaso eu tenho te dito, âmago,
que tenho hábeis mãos de fogo
pelas quais da espera à vida
saem puros deuses e deuses?

Tenho dito outrossim, meu eu,
que moro numa torre de egoísmo
alta e fina, fraca e linda
centrada num infinito mar de amor?

E dito isso, tenho eu, alma minha,
que também negar-te a palavra,
para não neste parapeito pouco
à vista ao mar de vergonha morrer?

Tenho dito a mim, meu deus,
que desesperadas braçadas daria
num mar tão belo porém fundo
no momento em que me afogaria?

 

 

Resguardo.

Míngua a luz dos castiçais
para afogar no coxim umbriforme
o corpo macio deitado conforme
o frio invernal nas fendas braçais
rasteja e no quente bem dorme.

Rangem as dobras das travas,
metais velhos de frio morrendo,
bocas argolas pesadas mordendo.
Pobres e espavoridas aldravas,
nunca estão do lado de dentro.

Rebate a parede das folhas o furor
das janelas como asas moinhas,
pelo vento se movem sozinhas,
pelos fantasmas a me fazerem supor
que as asas ventiladas são minhas.

Recolhem-se asas agora a pousarem
nas costas aquecidas viradas à lareira
eis o dorso para as chamas usarem
como línguas em pratos de comida à beira
como bafos escorregando em ladeira.

Deita o corpo no macio estendido,
fecha com desdém para o frio a porta,

a impenetrável lã as lufadas suporta,
afaga os ecos no ouvido escondido,
no frio invernal no quente conforta.
Outrora, não mais, lá fora perdido.

(31/05/03)

 

 

A Hora de Clara

Nem pouco encantada a poeira
a quina entupia, encantoada
sim, e que margem? Que vista?
Acha-se acaso na sala uma beira?

No canto, portanto, chorava
A doce e um tanto amarga
larga e um tanto encolhida
Clara que o escuro manto cobria.

Sofria tanto de um nada, vazia
cavada, fossem ainda mãos brutas
mas nada! Uma pá sem senhoria
por si humanamente cravada.

Clara, na escuridão imiscuída
que se achava no menor espaço
a esperar de mísero amparo
um abraço quente da parede fria.

O que faria uma sala, no entanto?
Esvaziada senão porque guardava
em cada aresta peles de sujeira
e Clara na disputa reles pelo canto.

Rasteira, aos pés de um muro
Terminava de viver desta maneira
Sob fogo vão que mal clareia
De um lampião que o escuro amava.

Morte à vista, risca a veia
Clara em pranto, mas que vista?
Desde quando, seja sala ou peito
vazio impõe a alguém um corte?

Morria, porém, de um forte jeito
Cortada por si mesma enquanto
A meia-luz fraquejava o mesmo tanto
Que na poeira suspirando Clara se apagava.

(09/12/2003)

 

 

Ar dos campos

O forro, o forro no monte estendido
de verde, verde alfombra no morro.
na sombra, o ar último sentido
eu, na sombra, no alto, morro.

Celestes! putti dos campos deparo,
aterrissam em luz como vestes
à trombeta anunciante me enfaro
à trombeta, nos campos, celestes!

No alto, tão alto no monte revivo
elevado, respaldo o cume inteiro
aberto, o peito, assim eu respiro
na sombra, o ar, morro primeiro.

(18/07/03)

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