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Tecelões da Silésia
Sem lágrimas em teares que tremem
tecemos e batemos os dentes.
Alemanha, tecemos nesta ocasião
aqui a tua mortalha e a tríplice maldição
Tecemos. Tecemos.
Maldição ao Deus falso, ao qual rezamos
enquanto o frio e a fome agüentamos.
Em vão confiamos e esperamos;
tem fraudado, mentido e enganado.
Tecemos. Tecemos.
Maldição ao rei o rei dos ricos,
o monstro que traga os peixes pequenos;
que nos oprime, explora e tonsura
e, como aos cães, nos fuzila.
Tecemos. Tecemos.
Maldição à Pátria falsa e funesta,
que só à vergonha se presta,
que a toda flor precocemente esmaga,
e ao verme alimenta em podridão nefasta.
Tecemos. Tecemos.
Voa a lançadeira e treme o tear.
Tecemos com dedicação sem cessar.
Alemanha de ontem, nesta ocasião,
eis a tua mortalha e a tríplice maldição.
Tecemos. Tecemos.
Que mundo grosso...
Que mundo grosso, gente avara,
- E mais e mais sem mais sabor!
Diz de você... o quê, amor?
Que não tem vergonha na cara.
Mundinho avaro, mundo cego,
Sempre disposto a julgar mal.
Seu beijo doce é meu apego,
Sem falar na ardência final.
(tradução: Décio Pignatari)
Canção
Era um dia um velho rei,
- cabeça branca, alma sem chama -
era um dia um velho rei
que casou com uma jovem dama.
E era um pajem timorato
- cabeça loira, alma de chama -
que levava em aparato
a longa cauda da dama.
Conheces a velha canção
cuja ária de angústia chora?
Amaram-se; o veneno, então,
fê-los morrer na mesma hora.
(tradução: Alphonsus de Guimarães)
Trevas
Quando menina medrosa
Vê-se de sombras em meio,
Canta com voz sonorosa
Para enganar seu receio.
Brilhou-me no céu da vida
Luz de esperanças, outrora;
Mas foi, em breve, expelida,
Na escuridão vivo agora.
Por isso, igual à menina
Que garganteia na treva,
Minha alma trenos eleva
Carnes de glória e de amor...
Mas as canções que imagina
Coitadas! servem apenas
Para iludir minhas penas
E acalentar minha dor.
(tradução: Afonso Celso)
O Navio Negreiro
Música! Música! A negrada
Suba logo para o convés!
Por gosto ou ao som da chibata
Batucará no bate-pés.
O céu estrelado é mais nítido
Lá na translucidez da altura.
Há um espreitar de olhos curiosos
Em cada estrela que fulgura
Elas vieram ver de mais perto
No mar alto, de quando em quando,
O fosforear das ardentias.
Quebra a onda, em marulho brando.
Atrita a rabeca o piloto
Sopra na flauta o cozinheiro,
Zabumba o grumete no bombo
E o cirurgião é o corneteiro.
A negrada, machos e fêmeas,
Aos gritos, aos pulos, aos trancos,
Gira e regira: a cada passo,
Os grilhões ritmam os arrancos
E saltam, volteiam com fúria incontida,
Mais de uma linda cativa
Lúbrica, enlaça o par desnudo
Há gemidos, na roda viva.
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