|
Bio Grafia
"Sim: é melhor pedra.
Dói nos outros, em si não.
Uma pedra no coração!"
Carlos Drummond de Andrade - in "NOITE NA REPARTIÇÃO"
No meu nascimento
Não nasci,
Sequer houve concepção;
Minha mãe colheu-me num monturo:
Pedregulho!
Talvez meu pai, não sei,
Na passagem de um regato
Viu-me imóvel entre lambaris:
Um seixo!
Desde criança que minhas pedras coleciono
E, com meus olhos chorosos, sempre as produzi:
Lágrimas cristalizadas!
(Velha pedra se desgastando de muito rolar).
Nas mãos de um deus menino
A atiradeira do destino
Pronta a ser arremessada:
Pedra bruta!
(Sem preciosidades, enfeite para dedos plebeus).
Ainda minhas pedras, tais as penas, coleciono
Embora, pouco criança, eu seja.
Pedras, penas e poemas
Que rolam
Arranham
Deixando lascas pelo caminho...
Insignificante pedra
Apenas pedra!!!
Fascínio
Teus olhos de cristal inquietantes,
Quais coristas em palco de cetim...
Quereria, neste passo, nesta dança;
Que teus olhos bailassem em mim.
Teus olhos de orvalho brilhantes;
Quais gemas esmeraldinas são assim...
Quisera os teus olhos serenos,
Para sempre, postados em mim.
Teus olhos, tal gotas de chuva,
Quiçá, setas de um arqueiro, um querubim...
Quero, em meus sonhos e devaneios,
Tais setas mirando-se em mim.
Teus olhos reflexivos, saltitantes;
Quais crianças a correr num jardim...
Quererei, em minhas fantasias,
Que tais infantes acenem para mim.
Teus olhos de brilho inquieto,
Em contraste à boca de carmim...
Se inquietos são estes teus olhos,
Inquietudes, bem mais, causam em mim!
Trama
No princípio era o nó.
E do nó fez-se laço,
Crisálida,
Gênese, avançar de vida...
Um laço mais, outro e outro:
Laços, corrente.
A malha a correr em fio,
Entre os dedos,
Como líquida poesia.
Elos fluindo.
Na sutileza da trama
Singulares desenhos se vão formando,
Livres pássaros no alvorecer da alma.
Uma rosa, outra e outra
... rosas.
Cristalizando-se o sonho de jardim
No algodão da vida.
Pelas mãos da criação,
O dedo do Criador,
Faz mover o tear. Manejo de agulhas.
À roca de fuso,
A aranha do tempo urde, trama,
Constrói sua teia; elos entrelaçados
Lã do destino.
A malha avançando
No compasso de ampulheta,
Marca os segundos da noite dos tempos.
O novelo em seu desenrolar-se
Vida que avança, no linho, no limbo, no lodo;
Rumo ao infinito:
(Finita vida breve. Efêmera).
Vão se fechando, lentamente, os pontos
Traçados vida e destino, palma da mão.
Correntes, elos, laços...
O nó final interrompe a trama:
Linha e novelo
No cesto de tricô do Criador.
No princípio era o nó. Tornou-se via, fez-se vida.
E se...
Foste nó, ao nó te hás de tornar.
Viagem Fantástica ao País dos Sentidos
Como em árvore ferida
O suor brotando como seiva.
Como seiva, o sangue agitar
Nas veias.
O destilar da seiva da vida, em tuas entranhas.
Suores, odores e perfumes
Misturando-se (unos) no duo
Reinventando mágicas poções de amor
No mágico balouçar de teus quadris.
Daí, adormecer. A paz distante
Embalado no canto destoante
Do Cisne Negro em êxtase.
Cavalgar teu seio ardente.
Ouvir, no teu gozo, o canto da sereia
Em naufragar voluntário no mar revolto
De tuas coxas.
Calar, num beijo, a explosão
Do choro.
Reprimir, sob o peso de meu corpo
Teu vulcão ativo de entrar em erupção.
Cravar meus dentes em teu pescoço
E como um vampiro
Sugar teu suor; até, saciado,
Despencar dos montes íngremes de teus seios
Sem morrer na queda.
Apenas adormecer ao teu lado e sonhar contigo
Um sonho bom,
Em que percorra, incólume, a estrada dos tijolos amarelos
Para no fim da jornada
Entrar triunfante em teu coração
E dele, tornar-me senhor absoluto.
Só
Tuas palavras
Em meus ouvidos:
A carícia de tua voz.
Minha alma sedenta
Bebe
No acalanto de suave som
Que soa em acordes dissonantes,
... Ora em falsete.
Tua boca em minha boca:
A doçura do néctar.
Meu corpo faminto se sacia
Na procela do desejo.
Arde em chamas
Inflamado em gelo
... Ora em fogo de vulcão, rio de lava.
Incandescente!
Teu sorriso
Em meu viver:
Favo de mel.
E a criança anciã, em mim,
Brinca de amar
No cair das folhas do tempo
Que veloz como o raio
... Ora monótono como a vida.
Tua distância
Em meu caminho:
Descaminho de se perder.
O poeta andarilho
Precipita-se
Nas curvas tortuosas
Do vazio.
Negro, solitário e sombrio...
Apenas, vazio...
|