A Garganta da Serpente
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Flávio D' Évora
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EU SINTO A BRISA

Eu sinto a brisa
E a lua se desnuda
Eu entro no cio
E só encontro o frio
Frio que o luar feri
Frio que me acompanha por aí
(Não, não, não...)
Se o frio ficasse torto
E no porvir vivesse o alívio
(Esquece!)
Que quando da aurora
Quando à minha volta
Em vez do teu sono
Tenho sempre o meu sonho

 

Eu peço ajuda
E a voz fica rouca
Eu olho pro lado
E a solidão é o fato
Fato que no infinito segue
Fato que na vista se diverte
(Não, não, não...)
Se o fato perder o rumo
E eu perder o sossego
(Esquece!)
Que quando da aurora
Quando à minha volta
Ao invés do teu corpo
Tenho sempre o abraço vazio

Eu me farto do ocaso
E o corpo pede descanso
Eu volto pra casa
E a preguiça me assalta
Me assalta com um grito medonho
Me assalta no repeteco de um verbo
(Não, não, não...)
Se a preguiça morgasse na mordaça
E eu aceitasse a alegria
(Esquece!)
Que quando da aurora
Quando à minha volta
Em vez do teu amor
Tenho sempre o meu apelo

 

Eu aceito a alegria
E a vida se insinua
Eu me assusto
E tudo me dá medo
Medo que não se dissipa
Medo que me tranqüiliza
(Não, não, não...)
Se o medo mudar de caminho
E eu seguir ao meu destino
(É isso!)
Que quando dessa aurora
Quando à minha volta
Ao invés do de sempre
Terei sempre você

 

 

LAMENTO URBANO

Água que cai do céu
Que molha a minha paz
Água que atrapalha o meu amor
Na hora de chegar
Água que não tem pressa
Que escorre pelo ar
Água que São Pedro manda
Só pra me atazanar

Ah, um coração à prova d'água
É pedir demais
É sonho de pobre
Coisa pra chorar
Até o pranto secar

Água que extravia a idéia
Que me entorta os planos
Água que me batiza
De tudo que é lado
E afina no fim
Água que perde o fôlego
Água que não molha
Nem pra contar história

Ah, um coração à prova d'água
É oração pra São Nunca
É cair pra cima
Coisa pra chorar
Até o sangue esfriar

Água que não vem mais
Que deixou o meu amor chegar
Água que caiu do céu
Só pra me molhar
Água que abusou da pureza
Que ficou poluída
Água que no verbo do meu amor
Foi se enlamear

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