Após Um Sonho
Vim para fora.
Movo o som da velha porteira,
Que range
Como ser moribundo...
Ouço lamentações dos ventos
Anunciando sua chegada,
Ainda que tardia.
Sopram em meus ouvidos
Em acordes não humanos
Dispersos
No avesso da noite,
E a escuridão nascendo
Selando a luz e o dia.
Vejo a tempestade
Que ressuscita no oeste
E a curvatura Infinita & móvel
Acima do raio de meus olhos
Vejo a sega de crescente
Esgueirando-se hipnótica
Entre as nuvens
E entre as nuvens desaparecendo.
Sobe, veloz, uma ave
Solitária
Escapando dos galhos
Como mãos de esqueleto
Atirando-se no vácuo.
Sinto em febre meus pés
Fincados na terra molhada
Sinto a dor dos ferrões de insetos
Perfurando e alimentando-se
Com pequenas doses
De meu sangue morno.
Sinto minha carne
Sentindo a dor
Sentindo a chuva
Encharcando meus cabelos.
Sentei-me aqui, ao meu lado
Acordado, vigília
Devorando o real,
Após um sonho...
Em cada milímetro,
Em cada respiração
A visão
Do brilho tênue das estrelas
Escondido...
Agora ouço
Um outro silêncio
Silêncio que atordoa
A vastidão...
360 graus de nada e ninguém...
apenas o cheiro de alguma árvore
e de lama,
e de charcos,
o toque gélido da realidade
Após um sonho...
Deus!
O céu está gigantesco!
UM NOVO DESPERTAR
Um relâmpago ofuscante em meus olhos
Rasga o véu etéreo,
No limiar...
Acordei finalmente.
Tenho caminhado por trilhas tortuosas
Gastando meu tempo em devaneios
Muitos sem sentido,
Muitos sem saída.
Confundindo a vida que eu costumava viver.
Depois que algo mudou, um dia
E isso porque você me mudou, um pouco.
Lá fora a tarde morre lentamente
E a noite invade meu quarto, muito rápido
Capto a memória das montanhas próximas
Me sussurram para eu lembrar de algo misterioso
Que ficou lá em cima... na floresta fechada.
Naquela água tenra, divinatória
Que absorve a luz distante das estrelas...
Ilusões, enganos, riscos demais...
Sonhos possíveis e impossíveis.
Água da qual bebi, quando tive sede...
Misturou seu poder mágico com meu sangue
Revelando como num oráculo
Tudo que é falso, tudo que é verdadeiro
Dentro e fora de mim.
Por isso, agora estou desperto
Com o brilho azulado de uma nova manhã
Com a claridade de um novo dia.
Acordei de um sono profundo
Acordei de um pesadelo
Que ocultava-se de mim,
Todo esse tempo,
Disfarçado em suave sonho...
Enquanto dormia,
Tudo parecia uma doce loucura,
Tudo surgia como nova liberdade
Um novo e desconhecido caminho...
Momentos que pareciam definitivos...
Tudo é possível em um sonho!
Mas uma fresca manhã surgiu
Pelas janelas da vida.
E tem sido lindo olhar os campos verdes
Lavados pela chuva da longa noite que passou.
Tudo foi consagrado pelas águas...
Tudo foi levado para longe...
É bem melhor acordar.
DEVAS DA CHUVA
Flutuando entre os devas da chuva,
Com a água que cai sagrada de dois céus,
Celebração de milhões de cintilantes prismas
Música silenciosa dos átomos de meu sangue incolor.
Fluem como onda, escorrendo brilhantes,
Minhas lágrimas, são chorar instintivo e profundo,
Soluçante e dolorido.
Chorando entre os devas da chuva,
Flutuando por um oceano de águas profundas...
Lembro-me d'uma gota de lágrima que nasceu dos teus olhos...
Não! não queria ter feito você chorar!
Sentido oculto de um coração que hibernava
Vida latente e furiosa,
Aguardando um sinal...
E nessa tempestade tenta buscar
nos ventos que vêm do norte,
e a que são submetidos seus sentimentos mais secretos.
Trazendo as águas mágicas, sopradas pelas nuvens
No cume das serras úmidas
Cobertas pelas florestas, lar dos Devas,
Senhores das coisas que moram nos céus
Iguais às que moram na terra...
Recebem a força das coisas superiores e inferiores.
Pois as chuvas caem em grandiosas torrentes no verão
E o calor às leva de volta
Sob sua vontade e comando
Ao entoar das vozes desses deuses,
escondidos no horizonte...
Horizontes do mundo,
Horizontes para onde fogem os pensamentos.
Assistindo agora essa misteriosa dança...
Espíritos da chuva,
Deixem então os raios da estrela
Criarem prismas de luz através de suas gotas,
Para, depois, enxugar suas lágrimas...
Eu não podia ter visto os deuses chorarem
Mas eles nascem para isso...
Chorar sobre as paragens do mundo
Paraísos e infernos,
Para produzir os milagres de uma só coisa
Em um ciclo eterno.
VIVENDO COM A ESTRANHA LUZ
Nesta noite venho pela estrada ainda escura,
Como se fosse pela primeira vez.
Então surgem, vindos dos confins da noite...
Os sinais emitidos pelo estranho engenho
Pairando insólito acima de mim,
Me fazem reviver o êxtase
Da não existência...
Caminhando nesta esquecida estrada,
Cercada pela neblina,
Olho com medo e fascinação
Para minhas mãos...
Elas estão brilhando agora!
Emitindo uma fria luz azulada.
E eu conheci, assim, muitas coisas
Que você não conhece...
E carrego esse sentimento há muito tempo.
E tenho visto estes rostos
presentes,
Surgindo de mil formas.
E olho para mim mesmo,
Das alturas,
Posso ver através de minha mente.
E sinto algo obscuro
Que faz você entrar em fúria,
E engendra o pânico
Como injeção intravenosa.
E meu coração foi ficando cego
Ofuscado pela luz,
Do desconhecido.
Fazem, então, um convite irresistível
A viver uma grandiosa ilusão...
A nunca imaginada união...
no sibilo mudo do estranho aparelho
E aquela luz interior.
Nada pareceu-me tão difícil
Como encontrá-la em um lugar ermo,
Escondido de todos,
E deixar-me beijar
Como oportunidade derradeira
seus lábios molhados e quentes,
Como os dos humanos...
As línguas que introspectam
À procura daquela misteriosa luz.
A saliva como panacéia extraterrestre,
Corpos de peles tão diferentes,
E almas tão iguais
Gerados a anos-luz de distância
Agora se fecundam...
Elementos alquímicos,
Da purificação.
A estrada continuava escura.
Percebi-me só.
O fogo em minhas mãos brilhava intensamente.
Acima de minha cabeça
Agora, somente
o abismo negro entre as estrelas.
O céu noturno está apaziguado,
Eles se foram...
Por enquanto.
GOÉCIA
Vejo em você, o seu próprio horror
De egrégora ou das vontades inconfessáveis!!
Uma lança pontiaguda
Apontada para sua mais secreta paixão
No trajeto da seiva, que se esvai...
De tua carne pulsante e em febre.
Como despertar dessa agonia?
Desesperar diante do mistério do tempo,
Dos séculos que passaram rápido demais!
Ou da maldição em profecia ancestral,
Arrancada de seu embolorado berço?
Vejo o coito feroz das bestas e feras
Do sexo sangrento ou suave, pela relva escura do pântano,
Percorrendo um caminho hábil e diabólico
De substâncias sutis a poucos metros da cama!
Vejo o altar como negro pássaro da noite,
Onde um odor de perfume exótico
Queimado em turíbulos,
Preenche a atmosfera de espíritos com olhos mórbidos...
Eternamente malditos sejam aqueles olhos!
- Retorno do transe, no meio da noite
Absorto na escuridão
Lá estavam eles... duas pequenas luzes
Como brasas acesas,
Olhos de um passado que se acreditava, estaria morto,
a me fitar, boiando no nada!
Por que?
Estava tudo descrito nos antigos grimórios:
Goécia, filtros de amor... e de maldições,
Grandier ou as Ursulinas de Loudun...
Pactos e juramentos hediondos
Sapos rasgados entre os dentes,
Num festim teatral,
Em meio a signos sombrios
no tempo distantes...
Como despertar dessa agonia?
Se as brasas acesas continuam ali,
Em silêncio,
Como a me espreitar de um passado reencarnado,
Vivo e ofegante!
Exigindo, como sempre, oferendas repugnantes
Apenas para realizar
Suas vontades inconfessáveis!