A Garganta da Serpente
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Fernando Guia
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MARÉS DESERTAS

Eis que de novo se agitam
Os esqueletos esquecidos na calma
Como pedradas, crepitam
Nos charcos entorpecidos da alma.

De novo as cicatrizes estalam
Como fendidas por gritos
De vozes que não se calam
Clamando por ladrões de mitos.

De novo o vulcão desperta
O medo da esperança deserta
Lançando lava em parte incerta
Enclausurando a razão aberta.

De novo esta maré de miragens
Reescrevendo teu nome apagado
Entre o vaivém de duas viagens
Num amor seco e salgado.

Eis-me de novo em turbilhão
Devorado por um coração faminto
Ressuscitando-me a ilusão
De sentir o que já não sinto.

(23.04.02)

 

 

O FOGO DAS SOMBRAS

Um fogo de sombras crepita
Queimando a memória cativa
Bailando como quem grita,
Trespassando a luz altiva.

Ah! Sombras que me cercam!
Espinhos que me apertam!
Ah! Sempre o amor à dor!
Lendário legado do estupor!

Sombras de insanas fábulas
Acariciando a fátua negridão
Amar escondendo as cábulas
No lusco-fusco da solidão.

Já eu também sou uma sombra
Dançando no colo do infinito
Implorando por um grito
Do fogo que me arromba.

(18.06.02)

 

 

ROSA DO LUAR

Sou um jardineiro do luar
Em jardins de lua nova,
Sou servo de alva rosa,
Rainha em quarto crescente.

Rosa em pétalas de mulher
Corpo ainda por lavrar
Regar como beijar,
Arar como acariciar,
E cultivar o verbo amar.

(10.03.02)

 

 

CARTA RIDÍCULA A PESSOA

Caro Fernando
As cartas de amor não são ridículas!
Se assim fossem:
A pena e o tinteiro
seriam ridículos,
As mãos que erguem a palavra,
seriam ridículas
Os lábios que soletram o beijo,
seriam ridículos,
Os poetas que inventaram o amor,
seriam ridículos!

Caro Fernando
As cartas de amor não são ridículas!
São gramáticas dos sentidos,
São cartilhas para corações analfabetos,
São pontes de carinho
atravessando rios desertos.

Caro Fernando
As cartas de amor não são ridículas!
Ridículo, é fechar envelopes
sem cartas de amor dentro!

(17.05.02)

 

 

VENTOS DO PARAÍSO

Sou um lobo solitário
uivando ao vento que passa.
Procurei... encontrei... perdi
ressuscitei... amei... morri.
Fundamental não foi ter perdido
foi amar e ter sobrevivido.
Importante não foi ter encontrado
foi procurar sem ter ajoelhado.

Lobo do Paraíso banido
por as leis do vento ter infringido.
Fundamental não é a maçã
é o travo do desejo.
Importante, não foi ter amado
foi resistir ao vento passado.

(14.02.02)

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