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Ceres
Girei girassóis amarelos
e os cobri com a anilina do céu puríssimo.
E espremi algodões em nuvens
e ondulei mares em grama verde.
Caminhei pela terra sulcada, semeando nascimentos.
E meus pés afundavam e subiam
E as sementes afundavam e nasciam,
germinando milagres e renovação.
E era assim que acontecia.
E as árvores curvavam-se e balançavam-se.
E os rios cantarolavam,
Os lagos suspiravam
E é assim que acontece.
Meus pés por entre árvores,
minhas mãos por sobre as águas
e meus olhos em tudo.
Sorvi mel de teus lábios lúgubres.
Flores de solidez,
Flores de solidão.
Colhi frutos não maduros da nossa inconstância.
Colhi sementes de tempestades não nascidas.
E tive medo do desconhecido.
E tive medo do fim.
E do final dos segredos.
Tudo era bom quando mistério.
E permaneceu bom quando luz.
E o problema existia.
E eles sempre existem.
(21.08.03)
Colhi belezas esquecidas,
nas folhas mortas da saudade.
Caminhei por entre ruas afogadas pelo betume da novidade.
Novas fachadas, mesmas queixas.
Deslizei encantada nuas mãos por trepadeiras e rozeirais,
que não estavam mais lá.
Onde foram todos?
(25.08.03)
Transeunte
Escrevi num guardanapo o que teus lábios não puderam conter.
Escárnio.
Vesti-me de solidão e encarei a opressão dos céus.
Imenso.
Caminhei pela calçada como se fosse pública.
Ilusão.
E em cada rosto procurava perfeição,
em cada palavra procurava um gesto.
Funesto.
E a morte me seguia de perto.
enquanto me esvaía em quimeras.
Faces
Ando correndo contra o tempo.
Cabelo emaranhado no vento
O vento emaranhado na roupa.
De roupa suja,
Pés descalços, alma nua e mãos vazias.
Não multiplico a complexidade da vida,
Mas entendo dos males do mundo.
Chamaram-me sábia, chamaram-me louca, chamaram-me maldita.
Serena como o olho do furacão,
Pequena como um raio,
Previsível como água
Estável como o fogo.
Sou eu
sou ninguém
Sem nome certo.
Chamada por todos por muitos nomes.
Muitos nomes, muitas faces.
Sou todas, tenho todas e nenhuma.
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