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O Beijo
Uma paixão desordena nosso equilíbrio,
nos joga no tempo como inebriados.
O beijo vem acalentar a palpitação do corpo;
bocas se unem e se desgastam
dando forma à desorganização
dos corações que pulsam.
Uma língua despeja na outra
uma porção de versos, silenciosos, densos e tenros.
O beijo toma de assalto a caixa do peito
e sua as mãos que se perdem indecisas.
Toda uma explosão de células no silêncio de um ato.
E os corpos então se atam
no desejo de nunca mais serem separados.
O beijo se perde pelo corpo,
caminha pelos cabelos,
sussurra nos ouvidos e já é visto como o salvador.
O beijo já não se perde:
deixa-se ficar prostrado nas mentes que ele roubou.
Ele assola esperanças, rompe certezas e costura desavenças.
O beijo e seu caos; a vida já não segue o mesmo rumo.
Nádia
Nádia
O nome da outorga
Da minha alienação
O nome da prisão
Da minha desenvoltura
O nome que limita
Minha vida
Ao limite dos meus braços
O nome que fixo dança
Na minha cabeça
E valsa pelo meu tempo
Inercia meu movimento
E me cria um único desejo
O de te ter a todo momento
As ruínas do tempo
Agora, desisto da tua cor
para não viver a dor
da espera da ruína do tempo.
Esse malfeitor implacável
capaz de tornar a vida viável
com um sonho impossível.
Agora, entrego-nos ao tempo
para que ele nos conduza
pelo seu equilíbrio,
nos derrubando em seus abismos.
Agora, deixo o tempo
fincar-me seus espinhos
para trazer-me a realidade
que, escondida na verdade,
se perde nos meus sonhos.
Agora, sou fruto do dia,
produto das horas,
escravo da memória
e do entendimento.
Vivendo uma vida sem tempo,
escravo da tua lembrança
ou do teu esquecimento.
Zelo
No teu corpo a sensação
de uma realidade idealizada.
Na tua fala, a imagem
do meu eu consubstanciado.
Na tua arte, a fala
do meu corpo transformada.
Na tua vida, um fruto
do meu pensamento desordenado.
No teu caminho, as pedras
de um possível abandono.
O vento frio da possível solidão.
A mão da vida a apalpar teu ombro.
A sombra da morte
que escurece a mão da vida.
No teu caminho, eu,
recolhendo as pedras,
atando nossos corpos contra o vento.
Unindo à tua minha vida,
iluminando a sombra da morte,
deixando que nos guie a sorte
até a vez da despedida.
Já é cedo amor
O recanto abençoado de uma praia densa de areia e farta de mar.
Espumas salgadas flutuando sobre nossos corpos jogados ao chão
em formato de morte, criando uma gritante alegria.
As bocas juntando-se perplexas e fragorosas
numa cadência espírita, metafísica, incompreensível.
O rumor das ondas remotas no horizonte, que dançam
na cadência de nossas bocas que são intransigentes com o ar revolto.
O momento é um disparo de luz, um flash do sonho do qual não se
quer acordar.
O momento é um júbilo doce que transpõe as barreiras do espetáculo
e atinge o exuberante.
A praia se queda à nossa quimera como se irremediáveis,
tomássemos o espetáculo da aurora e impedíssemos o recrudescimento
da maré que nos sustenta em transe.
Mas é tarde, amor...
O que esperar do dia que desponta inquieto?
Os dois seminus em volta de uma mesa de café da manhã feita sob
a nossa medida...
A negação do sono para viver o sonho em estado de semi torpor.
Talvez um dia passado à beira do caís do porto imaginando
que mundo magnífico poderíamos encontrar transpondo o horizonte,
e descrevendo-o com beijos sôfregos.
Um mundo feito sob a nossa própria encomenda onde nem o céu pode
dar seu juízo final.
Mas é cedo, amor...
É cedo para sairmos em busca da eternidade.
É muito cedo.
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