A Garganta da Serpente
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Francisco Barros Cascalhar
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XIV

Nâo aspires a
conhecer outro caminho
que nâo seja o da taberna
O labirinto de pedra que dà
embruxo a Compostela,leva
sempre ao mesmo fim:
"A feira dos parvos"
A mais sublime concentraçâo
de gente que crêe cegamente
que là no fundo dum copo
de vinho atopa-se a porta que
leva direitinho ao pais da
"Felicidade"
È enternecedor olhar tantas
almas devotas ao redor da pipa!
Feliz quem lhe è dado apreciar
tais prodìgios mentras là fora
"Chove miudinho"

 

 

XXII

No banquete dos
ilustres sô se ouviam
gargalhadas e aplausos.
Nem bem um gerifalte abria
a boca e jà era abafado polas
"ovaçâos"
Era um primor escutar e ver
tanto folgòrio acompanhado
de suculentas viandas,e finos
manjares,tudo bem regado
com caros vinhos e esquisitos
licores.Mentras,là num rincâo
perdido da taberna,eu e mais
outros coma mim,ao calor do
ribero brincalhâo,entoàvamos
um cantar moi baixinho para
nâo molestar a suas senhorias.

 

 

XXXVI

Jà chegou o inverno
e de chuva espèran-nos
longas jornadas.
Pipote ao canto,
"jarra a mesa"
taça na mâo e que chova.
Logo virâo os
"comparsas"
de todos os dias,caldearà-se
o ambiente e entâo,e por que
nâo? Umha boa cantarela
anima os espìritus e puxa
polo vinho.Entretanto que
chova a càntaros ou
"miudinho"
que mentres dura o vinho
nâo hà molhadura.

 

 

XXXIX

E grato visitar de
vez em quando os prados
floridos na primavera e
depois dar umha olhadela
as parras e videiras a ponto
de purgar. È deliciosa a vida
do campo! Jà nâo o è tanto
assim a do lavrador que
sua com o sacho numha
mâo e outra no arado.
Para esse sô hà alegria
quando na bodega da casa,
ao lado dos pipotes sàcia a
sede,brinda polos amigos
e logo verte uns chorros ao
pè da cuba pola alma dos
seus difuntinhos!

 

 

XLIII

Quando eu morra
a poder ser que nâo me
mandem flores nem coroas.

umha folha de parra como
a do pai Adâo,para ocultar as
minhas vergonhas,serà o
"suficiente"
Para o acompanhamento um
cantar de arrieiro entoado
mui baixinho,como deve de
ser e basta.
O resto jà todos
sabem: Beber em minha
memòria a fartar,cantar
sem muito ruido e que
cunda o exemplo!

 

 

(Poemas do livro livro digital "Chuva miuda")

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