A Garganta da Serpente
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Eudes S. Santana
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Aquarela

Dentro de mim existe uma aquarela.
Tem dias que sou blue sky e sorrio e canto e sou feliz.
Noutros dias sou a cor do girassol e então observo, leio olhares e afins.
Certas manhãs me deparo com a vermelha diante do espelho do toucador
Nestes dias tenho tpm, me deixa em paz, não fale comigo e até mais.
Em certas tardes percebo-me cor de rosa quando abro tua carta cheia de notícias que o correio azul e amarelo trouxe para mim.
Sozinha, a meia luz sou azul marinho quando escuto nossa canção e choro.
Um aparte, acho que o choro deveria ser negro porque o negro é a reunião de todas as cores, como o choro reúne todas as dores.
Quando me pego calada, pensativa, sol pôr-do-sol, sou amarelo luz.
Tenho meus dias de cinza, quando me sinto magoada, quando as coisas não são como quero e você não telefona.
Meu luto é branco, mesmo quando choro a morte peço paz.
Dentro de mim não existe uma aquarela, existe um arco-íris por isso sou assim.

 

 

Bem Querer

É isso que eu quero; quero sua boca quase sussurrada encostada na minha.
Quero você de encontro à parede e meu corpo colado no teu.
É isso, quero sentir sua pele deslizando na minha em todas as direções.
Quero teus olhos de queixa semicerrados olhando pra mim, me provocando.
Anda pelo quarto, me chama, me faz seguir tua sombra pela casa.
Quero todas as tuas reentrâncias divinais, em todas as posições.
Vem, vem me dá seu corpo, vem me dá tua alma.
Essa alma sutil e suave como as asas de uma borboleta que roça na rosa.
Dança comigo, tira o sapato, tira qualquer empecilho que me impeça de morder a tua nuca.
E vem, desnuda teus desejos na minha frente.
Turva minha visão com tuas mãos que regem meu olhar.
Sorri, esnoba minha cara de boba diante de teu corpo saído do banho.
Vem sem toalha, sem vergonha, sem pudor, sem mistério.
Seja meu homem, minha mulher, seja meu sobretudo no chão.
Fale bobagem, peça indecências; surpreenda-me como só você sabe fazer.
Quero esse querer sem hora pra acabar, quero momentos eternos.
Sem rimas, você já é o poema mais completo que minha mão pode escrever.
Seja meu prisma, meu imã, minha irmã, minha sina, seja homem, seja menina.
Seja assim, desse jeito assim, moreno, cálido, impávido colosso em decúbito.
Seja sim, assim, desse jeito sem jeito que ninguém pode entender.
Só eu e você, meu bem querer.

 

 

JOGO (3X1)

Não pare, não olhe, não se abale,
se falo, se grito, se choro.
Não pense, não fume, não ria,
se passo, se calo, se morro.
Não cante, não dance, não siga,
se me rasgo, se odeio, se fico.
não leia, não silencie, não ame,
se chamo, se amo, se engano-me.
Não permaneça, não esqueça, não beba,
se arrepio-me, se beijo, se dano-me.
Não traia, não saia, não finja,
se tranco-me, se corro, se excita-me.
Não diga, não fita-me, não aborreça-te,
se não durmo, não esqueço-te e amo-te.

 

 

EXODUS

Nasce mais um sol e um sol...
Vem mais uma aurora e o sol...
De minha eterna prisão um exodus.
Exato como 2+2 são 4.
De uma aurora exodus faço.
De minha aurora exodus-me.
Que distância em exodus percorrer?
Em que exodus mirar-me e conhecer-me?
Nasce mais um sol e uma aurora...
Vem mais uma aurora e o exodus...
Exodus de mim, medos de exodus.
Fuga para exodus assim.

 

 

ALMAS NUAS

O que era amor durou tão pouco,
e veio a dor e se apossou inteira.
E de muito longe veio a solidão,
não me pediu licença; se fez companheira.
Somos duas almas nuas,
que vagam soltas percorrendo ruas,
que gritam loucas, acoitando o dia,
que são retratos de vidas vazias.

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última atualização: 09.10.08
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