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MANHÃ SOBRE A BAÍA
Um barco solitário na baía
acorda-me todo dia,
do alto do meu prédio amanhecido
barco, solidão, poesia.
Estico o dedo vário
e longe toco o barco imaginário,
do alto do meu prédio amanhecido
meu poema solitário.
Um barco moroso e solitário
navega à poesia
do alto do meu prédio imaginário
luz, velame, baía.
QUEIMADAS
As árvores semiústas
erguem os braços para os céus;
o dia rubro
põe nuvens pavorosas no horizonte.
Tocos e troncos no cinzal medonho
e animais carbonizados
na angústia da fuga.
Os pássaros se foram,
restam o sorriso ingênuo do caboclo
e o grelo da maniva
entre os dedos tisnes das crianças.
PARA FAZER UM ARCO-ÍRIS
Para fazer um arco-íris
precisarei de nuvem
e a água nela contida
e a leveza que ambas carregam.
Precisarei de atmosfera,
de um sol descoberto,
de luz e de mãos,
precisarei de tintas diversas.
Precisarei de olhos que possam
contemplar o que será efêmero,
de respiração compassada,
precisarei de silêncio.
POEMA INSULAR
De Mosqueiro venho tanto
águas, infinitas ilhas,
fragata de muitas quilhas,
praia, vento, acalanto.
De Mosqueiro venho brando
crestado de muitos sóis,
horizontes, arrebóis,
orlas em que muito ando.
A noite já se apresenta
para os meus olhos tranqüilos
trazendo um vento insular
-melancólico, entretanto -
à baía e ao luar
da ilha que venho tanto.
DEIXEMOS QUE VENHA O AMANHECER
Um sopro leve,
um sopro de luz, dia acabado;
se há um verso para ser escrito
deixo que ele nasça
somente quando eu possa amanhecer.
E nesta madrugada
não precisarei pastorar as estrelas,
nem as flores,
pois a liberdade não pode ser ameaçada.
Não estou sozinho,
outras almas vagam pelos cômodos.
É simples
o que tenho a lhes dizer,
mas agora, não! Deixemos que venha o amanhecer.
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