A Garganta da Serpente
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Diego Hang Borges
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Eu sou

Eu sou o mal que te toma
Sou o sangue que jorra
Do teu ventre podre
A carne que te falta

Eu sou a chuva à noite
O raio que corta o céu
A falta de luz à noite
Eu sou o teu medo

Eu sou o seu cérebro
Seu pensamento escondido
O segredo que guardas
Eu sou o que você sente

Eu sou o bêbado caído no chão
Que te pede mais uma dose
Eu sou o rico apaixonado
Que você casa por dinheiro

Sou o cachorro vagabundo
Com esperança de salvação
Sou o cão de raça
Que não conhece o mundo

Sou o portão que se abre
Quando você está sozinha
Sou o cadeando que tranca
Quando você não está bem

Sou seus rins que purificam
O sangue do teu corpo
O coração que te falta
Porque alguem roubou

Eu sou apenas eu
Alguém macabro e obscuro
Eu quero apenas você
Mais um ser vivo no submundo

 

 

Dentro de você

Da cápsula pra agulha
Da agulha pra você
Na sua veia pura
Um pouquinho vai doer

Esbarro nas paredes
Eu tento sair
Enquanto treme os dentes
Eu me espalho por aqui

Eu dentro de você
Você sente tortura
E quem está perto de você
Acha que isso é loucura

Enquanto te condenam
Sem razão de nada
Eu me espalho sem pena
Eu já estou na veia cava

Daqui a pouco vou
Tomar sua memória
Pra todos você vai ser
Somente uma história

E eu vou te tomando
Tento até te sufocar
Você mais dinheiro vai soltando
Pra mim poder te matar

Sem grana, sem nada
Só to aumentando minha raiva
Mas sem grana eu não te mato
Você morre assassinada

 

 

CARNIFICINA

O espetáculo das luzes
No cenário de guerra
Mostra como são pequenos
Os seres da Terra

Os homens que matam
E são mortos
Que destroem a sua espécie
Como porcos

Que se matam sem motivo
Todos somos inimigos
Prostituindo nossas vidas
Correndo perigos

E na carne sentem o sangue
E são todos idiotas
São produtores da morte
E também sou idiota

Sou estúpido como todos
Não tenho sangue azul
Não me perdoem por nada
Também não ando nu

 

 

NÃO HÁ

Estou sozinho
Sem nada pra fazer
Só sou faminto
Sem nada pra comer

Aqui sentado
Sequioso por alguém
Só fico mal-amado
Não vejo ninguém

Só vejo negro
Apagaram a luz
Estou com medo
Seguro na cruz

Não há um vulto
Não a escada
Não há tumulto
Não há nada

Onde estão meus olhos
Me devolvam por favor
Sai sangue dos poros
Vida de horror

 

 

Sangue

O sangue doce que escorre dos meus olhos
Escorre até a boca
O sangue que escorre sobre a mesa da sala
E que esconde nossos segredos

A vida que se leva, leva á morte que se quer
Por que está escrito
E o sangue que sempre escorre de meus poros
Sempre sujo o lado mais limpo do pano

O pano sujo de sangue é sempre cobertura
De quem o sangue escorreu
E o sangue conserva a carne e os ossos
Daquele que já morreu

E quando o sangue corre como lágrimas
E chega a minha boca
Eu sinto o doce sabor e o delicioso odor
Dos males que vem pra bem

E sempre que sangro pelo nariz dou graças
Porque sei que estou vivo
Aí eu sei que não sou mais um defunto no lixo
Sou alguém que tem sangue

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