|
DESEJO NOTURNO
Tua vontade
entra pela madrugada
no caminho sinuoso
que teus dedos vao riscando
em minha pele.
Tua vontade,
madrugada adentro,
adentra cavernas e
abre caminhos nas florestas.
Tua vontade,
assim meio cuidadosa,
outro tanto encabulada,
escancara a minha vontade.
O dia amanhece sobre
nossas vontades alagadas.
(Brasília, 28/10/2004 - 18:32h)
DO MEU JEITO
Eu nao entendo nada de política.
Só quando passo pelas ruas esburacadas
pelo descaso das malfadadas autoridades
todas elas muito ocupadas
em fazer levantamentos esdrúxulos
e inventar desculpas esfarrapadas.
Eu nao entendo nada de História,
nem da Antiga, Medieval, Contemporânea.
E se eu for bem sincera,
nem sei mesmo se eu tenho uma.
Mas vou anotar alguma coisa do que vejo
num verso ou outro, bem depressa,
antes que a minha memória
brevemente se consuma.
Também nao entendo nada, nadinha,
de Arte (Pintura, Escultura, Cinema)...
Até hoje ninguém conseguiu me dizer
como eu sei o que é arte ou
o que é falta do que fazer...
Nao entendo nada de Poesia:
absolutamente nada.
Nao sei qual é a regra pra rimar,
ouvi falar em alexandrinos,
redondilhas, hai-kais, tercetos,
poesia concreta (que diabo é isso?
sempre pensei que poesia era
algo tao abstrato...)
Nao sei nada de métrica,
disso só conheço a fita,
mas vou escrevendo assim mesmo
no ritmo e rumo que
a própria palavra me dita.
E quer saber?
Nada disso me faz falta.
Deixo a palavra correr,
descer liquidamente a ladeira
entre minha cabeça e meu peito,
ir lavando o caminho,
e certeira,
ir saindo do meu jeito.
(Brasília, 7/10/2004 - 15:36h)
CORTES
Andei cortando caminhos
entre minhas vontades e a alma.
Os caminhos assim cortados
nao me saciaram desejos
e ainda tiraram-me a calma.
Andei cortando caminhos
entre o que sou e o desejo
daquela que nao sabia ser.
Os caminhos assim forjados
cortaram-me a carne
e eu nao aprendi a viver.
Andei cortando caminhos
entre meu amor e o outro.
Os atalhos assim traçados
destroçaram o meu amor
e o que restou foi tao pouco.
Andei cortando caminhos
entre o saber e o conhecimento.
Os caminhos que aprendi,
cortando assim apressada,
nao me ganharam tempo
e nao me ensinaram nada.
Cortei tantos caminhos,
construí tantos atalhos,
saí tanto da estrada,
fabriquei tanto desvio,
que o resultado foi nada.
Guardei as minhas facas,
aposentei minhas foices,
nao consulto mais os mapas,
e o que passou, foi-se.
Em minhas entradas e saídas,
um único aviso existe,
como um guia para a vida -
"Atalhos, desvios, picadas,
me esqueçam. Cortei relaçoes.
Vou pra estrada."
(Brasília, 25/fev/2005 - 15:11h)
BIPOLAR
Nao gosto desta que oscila.
Ora embaixo, ora no topo.
Prefiro ficar na fila
e esperar, ma non troppo,
o trem que me leve a tempo,
ao ponto exato do centro.
(fev/2005)
ESFINGE
Nao tenho nada pra falar
que palavras alheias já nao tenham dito.
Nao há nada pra escrever
que alguém já nao tenha escrito.
Nao há nada pra ser feito
que num pretérito perfeito
já nao tenha sido mais-do-que-perfeito.
Os meus substantivos sao todos tao comuns
e mesmo que as idéias me pareçam abstratas
elas nem mesmo me sao próprias.
No máximo, um comum de dois.
Olho a esfinge no espelho
e ela me devolve, em tom de sarcasmo:
"Voce é tao óbvia,
que nem tem que me decifrar".
(Brasília, 14/12/2004 - 12:46h)
|