A Garganta da Serpente
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Cláudia Carvalho


DOR

Uma onda dilatada
Que bate de encontro ao peito
Arrebatando a vontade
Mesmo nadando contra a correnteza
Sinto os músculos retesados
Alheios a qualquer contato
Pois ela invade até o pensamento
Antes, invade a vida
Isso é a dor
Flagelo estacionado na existência
Agonia sem fala
Que asfixia
Debato
Sem resposta
Fico rochedo mudo
Esperando a próxima onda
É inútil ignorar
Ora se acalma
Ora vem como torpedo
Para dilacerar a carne
Às vezes a alma
Após: silêncio
Faz-se uma pausa
Até a próxima punhalada
E assim vai até que eu
Me transforme em pedaço
Ou fragmento oscilante
Entre o ir e vir

 

 

Duas palavras
Soltas no pé
Folhas verdes
Galhos úmidos
Tronco forte
Estação repentina

Dois corpos
Soltos na cama
De hotel
Amor caliente
Almas caminhantes
Brejo das luzes

Dois momentos
Cambaleantes
Num lugar qualquer
Lágrimas soltas
Falas contidas
Na fé

Uma única mensagem:
Sabor.

 

 

Frações do desejo

No aspiral de nossas vontades
Despimos roupas, defesas,
Vaidades
O corpo ganha intensidade
num gozo prestes a irromper
O momento sangrento
de batalhas,guerras,
Enfim, pequenas grandes vitórias
Da alma primaveril
Destoa ainda insaciável
Generais do vento
Ora abruptos, ora lentos
Esses desejos irrevogáveis
Deturpados em lamentos
Nunca são totalmente libertados
Ficam aprisionados no tempo
Crescem dilatando esse abrigo
Servil e discreto corpo
Que transporta comodamente
Essas tormentas estanques
Se aprisionadas lançam
Furacões pelo sangue
latejante instante

 

 

Leitura do invisível

Esses olhos que flutuam no espaço
Dimensionados entre águas cristalinas
Sobem e despem toda a tranquilidade
Que da vontade fez rainha e soberana

Enlaçam céus entre os ângulos obtidos
Revelam dúvidas que irrompem no acaso
Para reciclar o que da vida se evapora
E recriar o que do belo se cultiva

Quebrando leis que envolvem
Além da vida
O puro êxtase da sabedoria
Não dirimida

Vestem de cores diversas
As coisas mesmas que escorrem
do descaso
ainda que encobertas
Pelo véu da ignorância

Transportam sem medir o peso
A efêmera chama
Que dança na existência
Seja vida ou sopro
Seu nome mais sereno

São visões que revelam
o puro signo
Do sentido desvendado

 

 

Acho nada
Vejo tudo
Quero mudo
Desatino de mim
Sigo rude
Sem saúde
Fim da linha
Trem apita lá longe
Foge de mim
Perco de novo a vida
Volto
Para a morte
Dura, pálida
Desfigurada
Estou só
Sem sentido do mundo
Ele caminha em mim
Além de mim
Quase posso perdê-lo
Basta me entregar
E não tomar os trilhos
Que guiam minha vontade

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última atualização: 14.11.08
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