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SONHO
Com a Lua cheia brilhando num céu escuro,
Apenas duas estrelas exibirão seu brilho.
O luar, lânguido se derramará
Por entre árvores melancólicas,
Iluminando e dando vida às faces de um Anjo de Mármore.
A luz inebriante da Lua seguirá seu curso
Possibilitando ler os nomes nas lápides dos túmulos.
As velas e os incensos espalharão seu cheiro de Morte
E evocarão os Espíritos que vagueiam sem rumo
E observam a lenta putrefação de suas carcaças humanas.
Juntamente virão os Espíritos Não Mortos
Que ao contrário de seus antepassados que sugavam sangue,
Sorvem a Vida, direto da fonte,
Direto da Alma...
Do Céu cairão Anjos chorosos
Derramando lágrimas por nunca poderem desfrutar dos prazeres da carne...
E todos compartilharão do momento
Em que sobre um mórbido depositório,
Dois corpos nús, envoltos apenas em luz,
Se movimentarão ao som de Sinos Rituais.
E então, no auge da celebração,
No mágico momento em que
As Almas transcenderiam os limites mortais,
Sou trazida de volta, tudo não passara de um sonho,
Abro os olhos,
Respiro fundo e volto a dormecer.
Neste momento, as Sombras projetadas
Pela Lua que entra através da vidraça, se movem,
E deitam todas junto a mim.
SAUDADES
Às vezes sinto falta das coisas que passaram.
De coisas que eu tive
E da pessoa que eu fui.
Sinto saudade da criança ingênua
Que não precisava parecer nada;
Tinha apenas que brincar.
Brincar de estudar, brincar de rezar,
Brincar de viver.
Subir em uma árvore e acreditar que ela era só minha.
Pular lá de cima e ter certeza de que não iria me machucar.
Ir deitar à noite e ter como única preocupação
Algo bom para pensar até adormecer: uma aula de balé, mochila do Mickey, moedas de chocolate.
Orar e não ficar com dúvida nenhuma:
Papai-do-céu está escutando. Ele sempre escutava...
Ter alegria infinita com coisas muito pequenas:
Um café batido e espumante, uma música do Raul Seixas
(Pluct, plact zuuum !!!)
Uma grande cesta de doces na manhã de Páscoa,
andar de "bice" no domingo...
Só que crescemos, e tudo se estraga.
Passamos a ser o que parecemos e
Deixamos de parecer o que somos.
Não sabemos mais brincar e tudo que fazemos
É por pura obrigação.
Não vivemos: sobrevivemos !!
As árvores perdem o encanto e
Não tomamos mais banho de chuva.
Quando nos deitamos,
A cabeça nos pesa e tudo que não temos
São pensamentos bons.
Deixamos de rezar quando descobrimos
Que existiu a Santa Inquisição
E começamos a achar o céu
Um lugar muito monótono...
A Páscoa perde a graça
No dia em que encontramos um garoto mexendo no nosso lixo...
Os passeios de domingo são suspensos
Já que papai vivia de ressaca.
É impossível não ter saudade
Do tempo em que eu não sabia!
Era bem melhor quando eu não sabia
O quanto dói sentir saudade !!
CONFLITO
O bem e o mal
vivem dentro de mim.
Eu sou o invólucro da luz etérea e das trevas do medo.
O céu e o inferno, o que eu escolher é o que será.
Demônios e deuses habitam a minha alma
Em constante conflito.
São forças opostas que dilaceram meu ser
Transformando a dor espiritual em dor física
E me fazendo verter lágrimas de sangue.
Um anjo azul com faces de nácar afaga meu rosto.
Ele me traz a paz e a serenidade do céu
E espalha no ar a brisa suave que vem do mar.
Aí, então, seu rival aparece. Veste negro e seus olhos
Faíscam, seu hálito é úmido e quente.
Tento resistir, mas ele me hipnotiza,
Desliza suas mãos com longas unhas
Pelo meu corpo que treme, num misto de
Prazer e repulsa.
Urros de horror e luxúria
Velas vermelhas que pingam nos seios
O sangue que escorre
Os olhos que se fecham.
Já não resisto, me rendo, outra vez sucumbi...
Então, quando tudo acaba,
O anjo azul volta para o meu lado
Traz água fresca e perfumes
Para limpar a minha pele
E tentar salvar a minha alma.
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