A Garganta da Serpente
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Cassandra Carmo de Lima Véras
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SUSPENSE

Acompanho seu silêncio
com meu silêncio
e não é bastante.
Toco o limite plástico
da distância
e minha mão se perde
no portal mágico.

É um jogo de perguntas realizado
na sala atapetada
com cascas de ovos.
Reality show onde nós
somos quatro
e nos vemos
enquanto jogamos de fato:
pequena armadilha,
sutil campeonato,
e vencer talvez seja
um final impossível.

O que importa é o lance
é o que se desdobra,
a promessa de novos
e possíveis prazeres.
Seu riso, meu riso
os raros deslizes,
palavras que indicam
avanços e recuos,
a curiosidade que incide
sobre os pontos escuros:
suspense que arde
nas pontas dos dedos
nas mãos do futuro.

 

 

SÓ FEITO PASSARINHO

A cada passarinho
a pergunta: - A vida é o que?,
volta pro ninho.
A cada passarinho
o sentido do: - Sou o que?
voa sozinho.

 

 

VERÃO

Dias quentes demais
desmantelo demais
perdi o foco.
Há derramamento.
O amor se espalha.
Aqui estou
difusa, confusa, atordoada.

Fio elétrico,
corrente
que percorre o caminho
do fundo do meu olho
à terra: mente, boca, coração,
umbigo, sexo, coxas, pés:
para frente e o inverso.
Onde começo?
Onde meu fim?

De um infinito extremo ao outro
você.

Transe que me arremete
sem direito a recusa:
sou quasar pulsando (escuto Caetano)
rumo a seus braços.
A alma estremece
e eu digo tudo
que você quer ouvir
[preciso lhe raptar].

 

 

DOUBTS

Luzes apagadas
olhos fechados.
Luzes abertas: fantasmas,
monstros, corujas e fadas.
Vozes de toda laia
repetiam em sobretons
- alturas do grito ao calado -
o lugar-comum mais temido
pelos que amam: há amar
sem confiar?
E os olhos do sujeito oculto
- motivo, tema e delírio do amor -
dentro da paranóia noturna,
respondiam cansados, cansados:
um por cento do meu mundo
é puro ódio.

 

 

EU ME HABITO

Eu me habito,
casa alugada.
Pago alto, mas nos dias
que o ocaso vermelhece o terraço
ou quando o sol faz a grama mais verde
ou quando as janelas amplas
ou quando armo a rede.

Eu me habito
casa própria
comprada com enorme sacrifício.
Foi cara, mas nos dias
que a música amplia os cômodos
ou quando os amigos tocam a campainha
ou quando a água do chuveiro,
bem gelada, desconstrói o sujo do
meu dentro, ou quando a sala
toda bagunçada - restos de comida
sacos plásticos e os pedaços de cigarro -
eu me habito
e cozinho sentimentos em fogo fátuo.
Me largo pelos cantos, me desacato
mas no momento seguinte vem a risada.
Eu me habito e sou larga
como um deserto,
como uma enseada e o mar aberto.
Então não tem erro
o poeta estava certo, pessoa:
tudo vale a pena
antes
depois
agora.

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última atualização: 14.11.08
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