A Garganta da Serpente
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Carlos Ferreira


Quase

Na véspera do suicídio
Eu via em tudo utilidade mórbida,
Que a vida tem uma beleza sórdida
Senti as pontas dos meus dedos gélidas.

A calmaria antes da tempestade.
Eu vi formarem-se nuvens pérfidas
Em anagramas de cores tétricas
Revestindo o céu com fórmica.

A calmaria antes do suicídio.
Eu vi que a carne era tão mais cálida
Que o desejo tinha mais dinâmica
Mas a ação era muito estática.

Na véspera da tempestade
Eu vi a vida se tornar lágrima
Correndo pelo meu rosto: cáustica
Pedindo atitudes drásticas.

 

 

Intervalo

Antes.
Quando a noite vinha
Trazia uma presença boa
Diluía tudo em teu calor
Gostava dessa coisa à-toa.

Agora não.
Quando a noite vem
Traz todo o vazio do espaço
Dilui tudo em mau torpor
Transforma tudo em cansaço.

 

 

Órbita

Você me deixa suspenso no espaço
Onde todo lado é lado
Qualquer direção é queda
E o caminho inverso um erro crasso.

Você me deixa suspenso no tempo
Onde qualquer alteração é atraso
Onde todo conforto é relento
E qualquer minuto a mais é escasso.

 

 

Ralo

Quantas vezes mais
isso vai ser dito
e as histórias repetidas?
Até quando tudo a minha volta
vai deixar apenas
um leve sinal de existência
ou de tão pouca resistência?

Eu quero partir.
No meio
Eu quero ser corroído.
Pelas bordas.
Eu quero ver a corrida invasiva
das hordas.
Eu quero um pedaço
de corda.

Mas não.
Eu estou no meio das sobras.
Entre peças de brinquedos velhos
de uma criança que cresceu.
Terra seca de uma planta que morreu.
Migalhas no fundo de um saco de papel.
Utensílio dispensável.
Embalagem descartável.
Composto volátil.

 

 

Figos

Eu nunca disse sangue
Agora eu disse.
Um monte de coisas eu não disse
(Disse: que palavra feia!)
Agora eu digo
Mas fico falando sozinho.

Eu nunca disse amor
Agora eu digo.
Um monte de coisas você não sentiu
(Amor: que palavra confusa!)
Agora explico
Mas fico explanando sozinho.

É tudo quase igual
Àquela caixinha de figos.

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