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as coisas complexas
são inimigas de Deus.
torna-se pois simples
como os bois e os cavalos
que no abandono da névoa
das montanhas são almas
que cumprem
dolorosas promessas a santuários
que estão para além do mundo.
a mulher que me deu mais prazer
perdia-a um dia.
às vezes via a sua magreza
através da elegância das saias.
eu conhecia os relicários dos santos
os seus ossos distribuídos por
gavetas de prata
e sabia que um relógio
cria no cão pequeno
a ilusão do bater do coração da mãe.
o que eu beijava nessa mulher
era a sua respiração
o ar da sua santidade
que lhe impulsionava as ancas.
e ao seu lado eu dormia
como uma cão enrolado
ouvindo o bater do coração.
o olhar de Deus
que há em nós
sabe o momento
em que tudo deixou de ser
a harmonia dos dias de verão
que tivemos
na idade dos beijos perdidos.
passo, agora, longas noites
acordado
sossegando este corpo
dos contactos efémeros.
o homem solitário
não encontra aquela eternidade
que o outro entretém
na mulher que ama.
tudo lhe escapou
como um milagre
das mãos vazias.
rodeado apenas deste silêncio
das bétulas,
ainda escrevo.
como se só ervas secas
deixasse nos sótãos,
esquecendo para sempre
os vários banquetes
que me foram oferecidos.
sabes que eu
podia ter terminado
como o outro em óstia.
não porque tivesse um amante proletário violento.
mas porque me opus a um lado e a outro
da conspurcação.
portanto leitor nunca te esqueças disso
nem da minha mente
tingida pelo sangue da adrenalina
do tempo furioso.
levanta-se um vento forte
em óstia semanas antes,
disse-me uma testemunha.
o mesmo vento áspero
que me faz hoje aquecer as mãos
com o bafo da minha boca
numa interminável
fila de refugiados entre a albânia e a grécia.
lembra-te pois disso leitor
e dá-me paz.
(Poemas do livro "Escrever foi um engano")
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