A Garganta da Serpente
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Carlos Rocha


EXISTÊNCIA

Somos o tempo, sentimos o seu passar
Nos olhos sem brilho, no vinco no rosto,
Quando o riso envelhece.
Somos as pessoas, os objetos, o mundo,
A visão que se expandiu para criar,
O universo, amor e ódio, canção e verso.
Somos pedreiros construtores da pirâmide,
Pais, mães e filhos, energia sem limite,
Zeus, Apolo, Hermes e Afrodite.
Vento assobiando e pássaros nos beirais,
Jardins, flores, florestas, rio e mar:
Tudo existe porque somos.

 

 

Momento Mágico

Caminhamos sob o sol poente, mãos dadas,
Rostos ainda em brasa, resto de beijos loucos,
Cândidos agora, respirando a paz do entardecer.
Nos teus olhos a primeira estrela,
Nos meus, o medo de escurecer.
Quisera fotografar esse momento
Mantendo vivo o sentimento.
Igual por toda a eternidade.
Quisera olhar de dentro e ver de fora,
Espelho de dupla face, mágico artefato
Que faça do passado o sempre agora!
A magia de desfaz, o espelho se estilhaça.
A alegria borbulha e some na taça do destino,
O qual, às vezes traço, mas nunca determino.

 

 

ENCRUZILHADA

Faz tempo evito o tempo de te ver.
Oh, mulher fada, do sorriso belo,
Faces coradas, lábios de alvorada,
Olhos estrela do anoitecer,
Ponte dos seios para o teu castelo,
Pernas colunas, portal do prazer.
Sou como pássaro que beija a flor;
Asas velozes fugindo na noite
Medo maior de ficar prisioneiro
O coração batendo qual tambor
Para marcar a pancada do açoite
De uma paixão, abismo traiçoeiro.
Ah, se eu tivesse a coragem de ir
No dia claro ao claro dos teus olhos
Para dizer-te desse meu desejo
De nunca, nunca mais me iludir,
Sonhando o sol no lindo mar de abrolhos,
Enquanto a vida passa no desejo..
Existem forças que para ti me atraem
Sem que as sinta porque és mulher,
Por tantos homens deusa cobiçada.
Enquanto fujo as estrelas caem
No teu caminho desse mal me quer,
O mal querer da minha encruzilhada.

 

 

SONETO DO ADEUS

Bailam meus olhos em busca dos teus,
Qual pirilampos na noite sem lua,
No mar de trevas do porto do adeus,
Do nunca mais te ver na minha rua.

Do nunca mais que não quero aceitar,
Porque sofri dessa paixão que traz
Tola esperança de unir num só lugar,
O fogo e a cinza do amor fugaz.

Voam no cais, as páginas rasgadas
Com os poemas desta alma louca,
Ao vento soltos na palavra rouca,

Teu nome em aflições balbuciadas,
Tristeza e culpa de não ter sabido
Tanto te amar o quanto fui querido.

 

 

Soneto da Devoção

Digo teu nome quando vou dormir,
Na prece à deusa dos enamorados
A quem suplico o mágico elixir
Que une corações desencontrados.

Digo teu nome logo ao acordar,
Estendo a mão querendo o suave toque
Do pássaro flanando pelo ar,
E da carícia sem peso, sem choque.

Digo teu nome no correr do dia
Nas pausas de repentes do trabalho,
Quando a calma me vem da nostalgia.

Digo teu nome quando a noite cai,
E procuro, marcadas no baralho,
As cartas do destino que se esvai.
Caio Rocha
Sucesso

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