A Garganta da Serpente
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Bruno Nunes
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QUE DESTINO

Que segundo tão infinito
Que centímetro tão imenso
E este meu sonho esquisito
Que não corresponde ao que penso

Que arranhão tão hemorrágico
Que transborda metade de minha vida
Que ainda procura espaço para ser mais trágico
E encontra mais um universo para machucar esta ferida

Que destino tão fatídico
Que adora assistir ao meu sonho inconfortável
Que já deixou de ser algo místico
Para se tornar algo detestável

 

 

PERIGO

Dizes que sou teimoso.
Pois sou.
Por isso teimo em te amar,
Teimo em me maltratar.

Não, não me arrependo.
Só lamento.
Nunca admitiria meu erro,
Antes admitiria meu enterro.

O jogo está perdido.
Não desisto.
Eu insisto em ver-me derrotado
Para quem sabe depois ser adotado.

Achas que sou perigoso.
Talvez.
Te amar é o único risco que posso te oferecer.
Só sei que vivo correndo o perigo de te perder.
É este o único que faz meu coração estremecer.

 

 

DOR...DOR...DOR

Não me vem à mente
Outra palavra senão dor
E quantas vezes meu pulso tremeu
Enquanto escrevia esta dor de amar
Não é falta de inspiração,
É a falta de outra sensação

Não me vem à mente
Outra palavra senão dor
Uma dor que já deve doer em meu leitor
De tanto ler a palavra dor
Que tantas vezes já repeti
E sem hesitação vou repeti-la:
Dor

Não me sobe ao cérebro
Outra sensação senão dor
Dor de cabeça, dor de olhar,
Dor de coração, dor de solidão,
É tanta dor, que chega a me entediar
É tão presente que me incomoda não senti-la me incomodar

Não ecoa em meus ouvidos
Outro som senão o da dor
É agora o único som que quero ver rimar com amor
Que motivos teria eu para usar "flor"?
Se tudo está escuro, por que utilisaria "cor"?
Só a palavro "dor" é que tem o verdadeiro teor.

 

 

PRECIPÍCIO

Sim, é de vida este cheiro fétido.
Cada músculo que aparenta firmemente enrijecido,
Por dentro está sendo vorazmente corroído.
Só mais um corpo desconhecido e sem mérito.

É de morte esta fragrância inodora.
Cada nervo que outrora tremia doente
Agora é só uma fagulha de uma dor inexistente,
Tão persistente que deixa de ser assustadora.

Não, não existe qualquer temor em mim.
Talvez uma resignação deste imenso desperdício,
Que em milésimos de segundo chegou-se ao fim.

Mas, mesmo que muito tarde já seja,
Haverá tempo para escalar as paredes deste precipício,
Cujas pedras afiadas meu corpo esquarteja.

 

 

SEPULTAMENTO

Estou mergulhado em um coma
Fui desinfectado e assepsiado
Imune a qualquer bactéria da descompaixão
A qualquer vírus da frustração
Uma alta dose de morfina me alivia
Por isso, nenhuma punhalada parece doer
Minhas pupilas dilataram
Como a inflação de meu sofrimento
Rápido como a metástase
Deste câncer violento
Às vezes o canto da boca mexe
Quero fingir um sorriso
Quem sabe eu posso contagiar as paredes
Com minha felicidade doentia
Cujo único sintoma visível
É um choro incontrolável
Que uma vez foi interrompido
Quando senti um punhado de dedos
Tocando meu rosto pálido
Deslizaram por cima de minha barba
Que já tinha o tamanho de nove meses
Desconfiei então daquelas ásperas digitais...
Voltei a chorar quando notei que eram
Apenas meus dedos dormentes
Que já estavam bastante esverdeados
E também muito envergonhados
Tão logo viram meus olhos
Apressaram-se em se esconderem
Logo vi que todo o meu ser
Era uma vergonha
E como não tinha aonde ir
Tratei de enterrar-me naquela maca
Como se eu me enterrasse
Numa abissal sepultura
Só então adormeci...
E sonhei contigo.

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última atualização: 14.11.08
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