Apocalipse
Que dos céus façam se as trevas
Que das trevas faça se a luz
Que da luz faça se o caminho
Para que nunca mais siga sozinho
Neste devaneio inóspito que me conduz
No fim do túnel, não mais avisto a luz
Não mais brilho meus olhos de esperança
Que deste mundo faça-se o apocalipse
Pois meu olhar não é mais o de uma criança
Não me vejo capaz de tudo
Não vejo em super-heróis meu incentivo
Sigo sonhando, contudo
Que abram-se os mares
O que fazer?
Eu não mais ligo
Quando eles se fecharem aqui estarei de novo
Aqui estarei sonhando sozinho
Se as montanhas se dobrarem, se o Sol se apagar
O que posso fazer
Conformarei-me com minha capacidade humana de raciocinar
E me enterrarei junto com todos, melhores ou piores, humanos ou ratos
Não me sentirei culpado, não temo o juízo final
Venha a nós apocalipse, venha a nós, mas faça-se fatal
(17/1/02)
Formas
O corpo ainda é pouco
Meu corpo ainda é pouco
A essência de minha sobrevivência
O suporte de minha indolência
O cérebro ainda é novo
Meu cérebro ainda é novo
Ainda não se encheu de sabedoria
Ainda não sei o quanto gostaria
Não sei o quanto gostaria de saber
Não sei até onde quero me aprofundar
Se nos mistérios da vida me perder
Arrependerei-me, por não saber onde deveria parar
Não sei até quando quero que meus ossos me sustentem
Não sei até aonde quero viver com o peso de meus ombros
Só peço que até lá, até que eu não seja mais necessário, meu cérebro me agüente
Que até o dia que sempre chega mantenha abertos meus olhos
Para captar de cada brilho do Sol que nos ilumina, um "que" incompreensível
Um "que" que minha mente nunca decifrará
Por onde meus olhos correrão ávidos por respostas, e sentirei-me sensível
Sentirei em cada minuto de minha sensibilidade, um algo insensível que me queimará
Por entre os vales e valas deste mundo
Por entre cada montanha, ao fundo de cada mar
Espero seguir sendo ao menos profundo
Para cegar-me ao com um problema sem solução me deparar
(21/1/02)
Mar
Naveguei por este sonho, meu irmão vou lhe contar
Passei por terras e vales, aonde nem o Sol ousou tocar
Errei por entre campos e bosques de onde faceiro toquei a Lua
E tropecei naquela montanha aonde cada estrela ao nascer do dia se amua
Mas por este mundo de aquarela não vi beleza como aquela
Um sonho de verdade irmão esqueça esse papo de Cinderela
Vi num mar o infinito, a cada minuto enchi-me mais de esperança
Passei no mar por uma tempestade, e lá estava ele quando chegou-se a bonança
Por entre as marolas durante dias eu errei
O tempo que ali se passou confesso que mal sei
Por noites e dias observei o nascer da vida
A essência de nós humanos, encontrei a minha saída
Mas algo me chamou mais a atenção irmão, vou agora lhe mostrar
Perdi me pelo horizonte, aonde o infinito toca o mar
Aquela linha tênue, que divide o sonho da realidade
Aquele ponto no espaço aonde não temos mais vaidade
Ao aqui chegar mergulhei novamente nas teorias de evolução
E após este naufrágio sentimental, cheguei a uma brilhante conclusão
Percebi porque dali viemos
Só mal entendo porque dali saímos
(24/1/02)
O bêbado e seu devaneio
Viajando nas ruas errando de bar em bar
Tropeçando em minhas pernas, sigo a caminho do mar
O mar que não encontro
Este mar de solidão chamado de São Paulo
Meus joelhos doem ao passar por mais um frio arranha-céu
Pergunto-me se existe vida além disso
Se existiria o meu "eu" longe desta realidade a qual estou conformado
Esta dura realidade que vejo em cada um dos nossos cidadãos
Todos lutando por um lugar ao Sol, não percebem que este Sol irá os queimar
Que a realidade da grana não faz o barato de nenhum doido
E que precisamos ser doidos para não enlouquecermos neste mundo insano
Precisamos escapar de alguma forma deste duro asfalto
Mesmo que os seres das trevas tomem meu coração de assalto
A cabeça vazia é a casa do diabo
O mesmo se diz do conformismo com os padrões a nós impostos
Não quero ser aclamado, nem ao menos quero um posto de atenção
Quero seguir sendo o mesmo maluco, enquanto meus calcanhares o permitirem
Enquanto explodirem em minhas entranhas todos estes hormônios de minha juventude
Que o amor nunca mais seja o mesmo para mim
Que cada amor soe com um tom diferente, para assim poder escrever minha canção
A canção que tocará meu ser
Aquela mulher por quem perderei os sentidos, por quem minhas pernas se dobrarão
Que eu possa errar por esse mundo sem um filho da puta em seu paletó para me ordenar
Um mega-empresário que neste pasto-mundo se dedica a explorar, a seus "employees" ordenhar
Mas a mim não
A este maluco não.
Como já disse antes, na loucura cotidiana somos todos culpados
Mas não assumo a ignorância de pessoas que não se abrem a novas opiniões
Pessoas que se sentam em suas poltronas observando o inferno se formando a seu redor
O Sol já dá suas caras
Estou sem cigarros, deixei em meu caminho um rastro de garrafas
Isso me satisfez?
De certo que não, mas todos morremos um dia não é mesmo?
Deus permita que este doido morra doido
(17/1/02)
Tempo
O tempo passa
Passatempo
Voam se os minutos
Acumulam-se os momentos
O tempo não para
Infreável tempo
Correm os segundos
Impiedosos como o vento
O tempo cura
Milagroso tempo
Atropela os momentos
Esquecemos os contratempos
O tempo fere
Maldoso tempo
Fermenta a saudade
Insólito descontento
O tempo é regra
Rege nossos planos
Dá as nossas cartas
Interfere em nossos sonhos
Passam se os minutos
Impiedosos e certeiros
Para se o tempo
Nas paredes dos mosteiros
Voamos com o tempo
Nos agarrando em seus ponteiros
Aceitamos seus desconfortos
Entendemos seus exageros
(23/10/01)