A Garganta da Serpente
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Jim Bates
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Fotografia

Quantos dias ‘inda temos
quantas rosas ‘inda querem
quantas histórias já se foram
desde o último filme.
Os pés descalços sobre a Lua,
as mãos postas sobre a cama.
Gemidos surdos de um silêncio
que acariciava a nostalgia.
Presos sonhos pelos olhos
focados cacos de lisergias
mirando os passos à bigamia
enchendo palcos de melancolia.

 

 

Letícia

Em meio aos delicados sons dos trovões,
aos gritos sussurrados de desespero mórbido,
Letícia adormeceu.
Começou logo a sonhar.
Seus delírios apocalípticos
deixavam-na mais leve
leve, leve, leve...
Era uma borboleta de fogo
voando em direção ao sol
perdendo-se na luz ofuscante.
Numa irresistível necessidade de estar só
encontrou-se nua
num branco infinito
esparramada
olhando para o céu.
Sem noção começou a cair
cair, cair, cair...
Flutuando em meio a músicas
filmes e imagens
pessoas e lugares.
Sentiu-se como uma navalha
rompendo a pele ainda quente
inaugurando a entrada da loucura
com brechas irrisórias e despretensiosas.
E no infinito branco
uma imagem pulsante
quente.
Assentou-se após a queda
e viu sua nudez pálida
num mar,
num mar de pétalas de rosa.
Vermelhas,
vermelhas como a paixão
vermelhas como o ódio
como a raiva.
Mas a floresta vermelha
começou a liquidificar-se
gota a gota
afogando Letícia
num mar de sangue.
A borboleta de fogo mergulhou,
tentou tirá-la daquele mar de emoções contraditórias
mas Letícia deixava-se levar.
Pouco a pouco
os sons voltavam.
A água da chuva
com seu tilintar frio e compassado.
As sirenes
os gritos
e os passos apressados.
Letícia ia se despedindo
encerrando sua viagem insólita.
Com um leve sorriso nos olhos
e nos lábios.
Os pulsos abertos
o sangue na cama
e uma lágrima caindo
levando consigo
a alma de Letícia ..

 

 

O enterro

Na viagem de volta p’ra casa
os passageiros do trem
estavam estáticos.
Haviam lugares vagos
e as janelas deixavam entrar
um... certo cheiro de flor.
O clima era de desesperança e gozo
um gozo insolente, impertinente
que deixava turvo
meu sentimento mais triste.
As lágrimas afogavam até o ar
e as estátuas
só tinham tempo para suspirar.
Até que uma mosca
mergulhou em meu café
e todos começaram a sorrir.

 

 

( sem título )

Ébrio suave o amor
vem quente pela boca
desce queimando a garganta
embriaga o coração.
Quando volta
azeda a alma
e doloroso é o gosto
da ressaca de paixão.

 

 

À  ROSA

Com faces destiladas de mármore
e toques sutis como relâmpagos.
Com brisas quentes 
qual vapor que surge dos olhos, 
ao instante da visita dos cupidos 
que flecharam sorrisos 
ao invés de corações, 
silenciando assim 
breves momentos de paixão 
que se eternizavam 
entre os suspiros de uma lágrima e outra, 
ou das palavras,
que morreram afogadas nos copos de cerveja,
enquanto as esperanças 
eram esmagadas junto das chepas.
Mas sete olhos fitavam.
Sete lâminas amolaram.
E apenas seis flechas os arqueiros prepararam.
Um conflito de covardes,
suspiros versus lágrimas
silêncio contra solidão.
Mas o inesperado aconteceu.
Do chão inerte brotou uma rosa; 
A Rosa.
De um vermelho que 
de tão quente 
era apaixonante, 
sarcástico e impiedoso, 
já apaixonado.
Incorruptível aos olhos amantes,
avassaladora ao coração obstante.
Frio. 
Já é tarde.
Sem sombra nem saída 
segue comitiva em direção ao reino.
A cama e o cigarro, 
confidentes, 
assim como o céu, 
a lua
e as estrelas, 
pareciam estarem surdos naquela noite, 
faziam chorar.
De manhã o sol parecia frio, 
reluzia na Rosa 
que amanheceu branca, 
pálida, 
fria, 
desbotada.
No chão 
vestígios de futilidade, 
de "beleza", 
falsidade.
Arrependimento.
Desengano.
Um rio de guaxe e grafite por entre os dedos.
Não bastasse falsa,
ainda sem classe.
Agora é tarde.

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