A Garganta da Serpente
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Antonio Naud Júnior
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HÁ A VASTIDÃO DE SÃO JORGE À MINHA VOLTA

para os novos amigos
José Inácio Vieira de Mello,
Ligia Valladares
& Nilza Barude

Foi São Jorge que me tocou.
Eu estava perdido na noite barroca e vi,
diante dos olhos ondulantes,
a espada de luz do jovem soldado.
Totalmente tomado pelo êxtase,
segui o caminho solitário.
Dentro de mim está tudo,
fora de mim está tudo.
O que deve acontecer, o que preciso?
Eu quero ser feliz, mas existem coisas
mais importantes.
O que quero dizer?
Como sou tolo!
Sempre lutando por algo,
sempre resistindo.
Tenho esperança, espero algo
como se estivesse numa estação de trem.
Não esperar nada
é o mais importante.
Às vezes penso coisas malucas
que voam dentro de mim,
abraçando a vida luminosa
como a mais fiel das companheiras.
Habitando com ela uma pequena casa
com um pequeno jardim.

Foi São Jorge que me tocou.
Montado num cavalo branco,
ofereceu-me proteção
em todos os lugares.
Imediatamente discordei de alguém que disse:
"Não vamos a lugar nenhum".
Não cedo. Vamos a algum lugar.
Incendeio o espírito com bom senso.
Espero aqui e nada espero.
Sinto-me como um pássaro
sobrevoando a Baía de Todos os Santos.
Sinto-me como jasmim
perfumando a escuridão.
Se eu fizesse algo
além de escrever?
Doar o coração como uma fruta suculenta.
Escrever que nada do que escrevo é suficiente.
Eu sou um poeta errante tocado pela luz de São Jorge.
O guerreiro de Capadócia, vencendo um grande Dragão,
é como um relâmpago no infinito.
Nunca acreditaria na vida como um fracasso.
Se eu desaparecesse
você só veria o silêncio das palavras.
Para chegar ao seu coração
fecho os olhos lentamente.
Vou de um lugar para outro.
Avisto o mar cálido de Ondina
e a platéia de uma peça no Theatro XVIII.
Vejo você.
Abro um sorriso.
O que está no coração é real.
Por que estou dizendo tudo isto?
Seria melhor não dizer nada.

Foi São Jorge que me tocou
quando via o mar.
As dádivas estão chegando.
O meu retrato naife.
Os horizontes pra ver e ouvir
para ler e suspirar
Não em vão.
Assim aqui estou e continuo
olhando os olhos dos Anjos
na madrugada quente, de presságios e corcéis selvagens,
escutando dentro e fora
e sou apenas ora vento ora bosque encantado.

Estou descansando agora, é misterioso o meu caminho.
Trago coisas raras: luas e sóis.
Não me interessa o que mata e faz sofrer.
O coração pulsa anunciando a vastidão.
A distância fumegante é pura ilusão.
Não tenho vergonha das palavras.
Ouço o canto dos sapos e das corujas.
Perdoa-me, não estou mais só,
o turco Jorge é o meu amante abençoado,
vestido com uma armadura de ouro
de inquieto fulgor.
Beijo o amado semblante,
deslizo lânguido no claro resplendor.
Bem-aventurado o céu de presságios!
Bem-aventurada São Salvador!

(Salvador / Bahia, Novembro de 2005)

 

 

PARA CADA UM A SUA VERDADE

acendem-se falésias
sob o mundo de inês
(sim inês de castro a concubina untada de mel!)
no quebra-vento
na água salgada
no caminho de mágoas
que leva a lugar nenhum
e a luz? a luz a luz
onde a sophia luz?
onde os sóis as estrelas as luas
dentro de mim e de ti?
as rochas calam-se calam sempre
calam todos os demais
num silêncio esmagador
de medo renovado
sem rosto nem perguntas
como ontem como hoje como amanhã
antigas almas na escuridão
antigos olhos saramago
em naus à caminho de noites de fado
rendição e solidão

acendem-se pássaros azuis
sob a imensidão de mar e céu
talvez uma última chance para compreender
talvez uma última chance para amar
cansado de sombras
cansado do viver por viver
digo calma calma é preciso calma
eu e todos os demais
outros e iguais e provincianos
estes murmúrios equívocos
silêncios de fantoches
ergue-se a esperança em gaivotas imóveis na areia!
na raiz-divina na sabina-das-praias no chorão!
no lagarto-sardão no rabirruivo-preto!
em todas as coisas helder da vida!
calma calma é preciso calma
de nada adianta esta ofendida angústia
a verdade é uma colméia de complexos
besuntada de variações obscenas
de nada adianta a florbela melancolia
tudo cai no esquecimento
poucas vozes são realmente importantes
e um e a um os sonhos cintilarão outra vez

arrancam-me o al berto coração
que não sabe saber fingir?
invento outro!
ainda tenho tempo para alvéolos sustos
garante-me pessoa
ainda tenho tempo para outros amores
calma calma muita calma ainda tenho tempo
para caminhar noite adentro
estremecendo como uma virgem
garante-me llansol
renovado coração quente
pés na estrada poética
galopando o cavalo eugénio dos sonhos

(Praia da Aguda, outubro de 2005)

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