A Garganta da Serpente

Aline Aimée

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As folhas

As folhas estavam lá, como ela desejava e suspeitava. Pousadas na plenitude de um descanso sereno. Folhas imunes à violência e às tragédias pessoais. Folhas cúmplices no contrato da harmonia silente. No interior de cada uma delas, o eco sussurrado do mistério da espera. Elas a esperavam. Estavam preparadas para acolher o peso corporal dessa mulher quente, úmida e aturdida. Ela as procurou, rezando para que estivessem lá, compondo solícitas o pálio de seu renascimento. Ela encontrou as folhas. Chegou arfante, numa correria desequilibrada e quase que se joga. Com o consentimento do destino, que só isso a ela permitira, caminhou cuidadosa por sobre as folhas, iniciando com os pés a melodia ritual da entrega. Sentou-se, deitou. Entregou os ouvidos aos cuidados das folhas, e os olhos molhados ao convite dos galhos acima, que sábios, ofereciam-lhe as alternativas do tempo nos contornos de sua estrutura. Ali, ela poderia crescer.
Não aceitava cair ou se resignar, como suas companheiras, as folhas.


(Aline Aimée)


voltar última atualização: 19/04/2011
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