A Garganta da Serpente
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Aldemar Norek
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MEDITAÇÃO
ESCRITA A FRIO SOBRE A PEDRA

quando eu nasci um anjo porco
desses que andam nos esgotos
veio ler a minha mão
                        não disse nada
            e de soslaio
seguiu subtraindo no ar de maio
todos os signos postos na escritura

quando eu nasci um anjo morto
louco cego súbito e inconstante
veio ler a minha mão
                        esse farsante
riscou um tosco enigma em minha pele
sem anestesia:
será Poesia?

(Março/2005)

 

 

DISCURSO E ODE DO POETA WALY SALOMÃO ANTES
DE SE FECHAR A ÚLTIMA PORTA DO PARAÍSO

(recebido por este que escreve num acesso psicográfico
à lembrança imprecisa de uma noite incerta em que o poeta
bradava seus versos na praça cazuza no fim do século vinte)

eu sou o dervixe
a lua marginal
o enigma
e lanço pérolas aos poucos
devagar
com o andor q pude cavalgar
num transe

me segura
me segura
me segura qu'eu vou dar um troço
um treco
um truque
esse é o lance
eu troco porcelanas astrolábios
gengibre e madeiras do oriente
perfumes do meu canto
pelo q você quiser
eu troco
marfim e seda nobre
do meu canto
100g de canela é ouro em pó
no armarinho nobre dos meus versos
casca de noz moscada das ilhas banda
e o cravo das ilhas molucas
do meu canto
eu sou o canto da sereia
tampa os ouvidos
nobre viajante

sou o dervixe
o mercador fenício
o sábio marginal
o esteta
e desfio folha a folha destes versos
debaixo da fonte primal do chafariz da praça
sitiada
vem q tem
no meu armarinho tem
mercadoria fina
especiarias e outras
miudezas

me segura
segura aí malandro
me segura qu'eu vou dar o troco

eu sou o dervixe
o enigma
o curinga do baralho
e vou pedir licença aos deuses da Poesia
pra me sentar
ao lado da cadeira q a mim foi destinada

eu sou o cavalo
dos Orixás sem corpo da Poesia
e solto um grito na mata êá
solto coices ferradurados no ar
eu sou o caboclo
o encosto
o orixá menino mutante
sou a delicadeza e o espalhafato
eu sou o ato e a potência
e vou pavimentar o solo incerto
onde vão caminhar os novos bardos
poetas do futuro!
tudo está por dizer
escrevam as canções q eu não vou escutar:

a Poesia é a rebelião contra esse existir sem causa
a última pirueta agônica antes da morte fria

mas contra o muro de minha própria ignorância
q à minha frente se expande e esplende
eu cavo
           cavo
       & cavo.

(março/2005)

 

 

em pessoa

largo o Universo e vou sentar na areia
meus olhos não são mais os mesmos
vejo o tempo atravessar o tempo
e arrisco um lance
faço perguntas num desenho lento
ninguém responde
e esse silêncio é o espaço que me cerca

quem há de ter os dedos pra tocar
o coração do centro dessa ânsia
que nunca apressa o ritmo do tempo?

(21.12.91)

 

 

pequeno epílogo

ninguém apressa o ritmo do tempo
o ritmo do ritmo do tempo
- o it do ritmo: rito do tempo?

(21.12.91)

 

 

UM DRINK COM RIMBAUD

Vou para um mundo negro
feito um cego
                     procuro meu degredo
         busco sinais pelo século
         filosofias sistemas sofismas
         cismas
         tudo é quase secreto
sob o véu de um céu aberto
                                        chaga
vou pra esse mundo e nego
         seus fundamentos
                  sou secamente guiado
                  pelo momento
sinal aberto
         e nem assim desperto
                                      do sonho:
PRIVADO DA MEMÓRIA ESTOU FELIZ

(23.8.97)

 

 

manuelina

não dou bandeira
a estrela da minha vida
          é quase inteira
perdi algum pedaço na viagem
no ritmo do meu passo
passar cada luar
          cada sorriso
passar cada vez mais
passar cada vez mais os paraísos
em que não haja rei
lá serei sábio louco pálido
          tranqüilo
lá serei pai e filho
terei a mulher que quero
do jeito que escolherei
passar cada vez mais os paraísos
passar cada vez mais
passar de vez

(21.10.92)

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