A Garganta da Serpente
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Affonso Romano de Sant'Anna
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LAPIDAR UMA MULHER

Há quem tente lapidar
uma mulher
como se lapida
jóia rara
            e pedra bruta.
Com escalpelo
                     cinzel
                             buril
inscrevem nela uma figura, depois
a expõem nos salões
revistas e altares
apregoando quantos camelos
quantos colares
vale o dote
                     -da criatura.

Na Nigéria também
lapida-se mulher
mas de forma
inda mais dura.

Não bastassem
os muros em que viva
vive emparedada
é sob pedras
que a mulher viva
é pétrea e friamente
sepultada
quando não se conforma
com a forma
como desde sempre
é deformada.

Assim a mulher
que se nega a ser
por eles esculpida
deve morrer como viveu:
-petrificada.

Atiram-lhe
tantas pedras
até que não se veja
a forma e o sangue
da apedrejada.
até que a mulher-alvo
alvejada
desapareça numa maré de pedras
coaguladas.

Desta feita os escultores
foram mais perfeccionistas
deixaram a mãe
amamentar o filho
antes que o leite no seio
se petrificasse.
Assim o filho na fonte beberia
o pétreo ensinamento
                                antes
que a fonte secasse.

Ao amante não lapidaram.

Ali o homem já nasce feito
é obra de arte que dispensa
qualquer lapidação.
A mulher, sim, carece
de acabamento
posto que imperfeita figura
na ordem da criação.

 

 

O HOMEM BOMBA

Como se as tâmaras
e as palmeiras desistissem
do lento crescimento
e na semente da semente
-por não suportar o futuro-
o presente detonassem

como se as cabras
o leite das crias
na areia urinassem

como se no poço
a possibilidade
de água se esgotasse
e no deserto a sede
fosse tanta
que o sedento
o oceano incendiasse

como se a travessia
a nenhuma saída
levasse
como se a terra prometida
fosse estéril areia
que nenhum oásis
abrigasse

como o narrador
que pelo fim
sua estória contasse
e o autor
que pusesse o epílogo
no lugar do prefácio

o homem-bomba
não é um simples suicida
é aquele que pela morte
decide
inaugurar sua vida.

O homem-bomba
é o jardineiro
que arranca a planta
como se a plantasse
que apaga a própria luz
como se nele algo
se iluminasse.

Não bastasse
o homem-bomba
ejaculando estilhaços
apunhando-se a si mesmo
quando o amante
da mulher encontrasse
há nele outra face
                           -a mulher
grávida de bomba
que chega à rua ou praça
como se à maternidade
chegasse
de cujo útero explosivo
fecundada
                 -a morte nasce.

O que é preciso
para destampar o pino
de uma jovem bomba-viva?

O que no adolescente
já explodiu
quando nele
sob a primeira barba
a bomba entumece
ativa?

Noutras terras
diante da conjuntura
ninguém diz:
meu filho está se formando
e pretende explodir
na formatura.

Noutras terras
ninguém diz:
meu filho
decidiu formar-se
em arquitetura
mas seu projeto
é projetar-se pela morte
na utopia futura.

Noutras terras
ninguém diz:
meu filho sairá essa noite
para uma bela aventura
vai dar tremenda festa
dentro e ao redor
de sua sepultura.

 

 

ELEFANTES

Entrementes leio
que em Daknei
os elefantes vão ao rio banhar-se
na Lua Nova
e depois de assim saudá-la
voltam à floresta tranqüilos.

Quando doentes
(também leio)
com suas trombas
lançam ramos de árvores
                                           ao céu
como se oferecessem sacrifício
a um deus qualquer.

Pode ser tudo interpretação humana.
Mas na Índia (já foram vistos)
no crepúsculo
                   -os elefantes choram.

 

 

 

DESENCONTRO

Às vezes é no desencontro
que as almas se revelam
quando se ferem se lanham
com palavras lágrimas e insultos
e só lhes resta o assombro.

Bem que gostaríamos
fosse ameno doce ou luminoso
o encontro mas é no desencontro
que às vezes as almas se revelam
quando ásperas e agressivas
se tocam no mais fundo
e perplexas se contemplam
como se contempla
                    - o intransponível abismo.

 

 

BALADA DAS MOÇAS DA MINHA RUA

Como se preparavam
para o possível amor
as moças da minha rua.

Após o perfumado banho
com a alma nua, punham-se
na janela ou no portão
ostensivas, aguardando
o que o sortilégio da noite
pudesse lhes doar.

As pequenas, que adolesciam,
teresinhas, sílvias, clarices,
lúcias, estelas, helenas,
no despontar dos seios
a sonhar já se dispunham.
Mas a noite premiava
apenas as mais velhas
na idade de namorar:

Dolores de tornozelos fortes
beijando enlouquecida
no portão a gargalhar.

A carioca -brincos faiscantes
cabelos soltos, potranca enlaçada
pelo namorado que tocava
suas ondulantes formas ao luar.

Zezé - quadris largos, portentosa
beijando o noivo no jardim
(nós no meio do arbusto ocultos
vegetando formas de amar).

Geny - ofertos seios na janela
a interminável cabeleira a pentear,
e, de repente, surgindo grávida.
(Quem foi? Não foi. Inveja. Azar).

A vizinha casada saindo airosa
(todos sabiam) e voltando
desfeita de tanto dar.

As demais casadas não tinham sexo.
Consagravam-se à feira e a bordar,
orgulhavam-se da casa limpa,
punham cadeiras na calçada
e conversavam conversas
que só as desamadas
sabem conversar.

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