Texto de:
Cadorno Teles |
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Satã, Uma biografia
- Um livro de Henry Ansgar Kelly -
Sempre temos em nossa mente que o mal é representado pela figura de Lúcifer,
o príncipe das trevas. Não para o pesquisador norte-americano
Henry Ansgar Kelly, que com sua obra Satã, uma biografia (Satan,
a biography, tradução de Renato Rezende, Globo Livros, 388
páginas), examina a imagem tradicional que Satã possui.
Professor da Universidade da Califórnia, um senhor de 74 anos, Kelly
é um ex-seminarista de uma escola jesuíta, que mapeia nos documentos-fonte
as verdadeiras origens da personagem em questão, trazendo com isto, não
apenas conhecimento histórico, mas também surpresas teológicas.
Logo, as verdadeiras características, foram minuciosamente examinadas
para demonstrar que a Bíblia não se apóia na imagem tradicional
que se tem do diabo. E sim, usa a imagem que Satã era um empregado de
Deus, uma espécie de primeiro-ministro.
A analise do texto bíblico que Kelly faz se perde às vezes em
filigranas gramaticais, o que faz a leitura ser bem leiga, mas por vezes, ter
um certo conhecimento sobre o assunto. Entretanto, no final das contas, Satanás
é quase como um "extra" bíblico. Seu papel mais protagônico
no Antigo Testamento está no livro de Jô, quando instiga a Deus
a provar a devoção de Jô infligindo-lhe uma série
de castigos ao pobre homem. No Novo há uma melhoria, e ele parece dominar
o mundo, mas Kelly argumenta que, esse poder é delegado por Deus. o Diabo
está encarregado de seu próprio reino e está trabalhando
contra Deus. Na verdade, ele está tentando provar a Deus que muitas pessoas
são pecadoras e não merecem ir para o Céu.
A narração cristã da perdição e da redenção
do homem quase poderia precedido o maligno. Contudo a Igreja necessitava de
um opositor maior, uma figura na qual possa se concentrar todo o terror do pecado.
Assim atribuíram ao Diabo qualidades que não lhe pertenciam.
Satã é, obviamente, um personagem-problema. Porém, não
do modo que se imagina. Em primeiro lugar, não é universal, pois
fruto da tradição judaico-cristã. Portanto, a maioria da
humanidade simplesmente o ignora. Em segundo lugar, ele não é,
na verdade, fruto da tradição judaico-cristã: pois o Satã
judaico nada tem a ver com o Satã cristão. Para piorar, o Satã
cristão pouco ou nada tem a ver com a Bíblia. Os cristãos,
porém, acreditam ser sua religião derivada da Bíblia, e
que a figura de Satã é a personificação do Mal,
o Príncipe das Trevas e Senhor do Inferno, parte importante de sua religião
e, naturalmente, parte da Bíblia. Mas não é. Isto significa,
entre outras coisas, que o cristianismo não deriva direta nem exclusivamente
da Bíblia, e que Satã não faz parte, necessariamente, do
cristianismo. O mais surpreendente, porém, é a maioria dos cristãos
ignora tudo isso.
Num argumento em prosa em que o autor parece conversar literalmente com o leitor,
temos um estudo da figura mítica do Inimigo da humanidade, e um desvencilhamento
de diversas abordagens. Kelly exibe impressionante controle do material, em
hebraico, grego e latim, como se estivesse trocando idéia em uma conversa
informal.
No final das contas, parece que o diabo é literalmente atrativo, sempre
temos obras que o demonstram como protagonista, como as diversas ficções
que temos publicadas ou trabalhos acadêmicos, como aquele de Harold Bloom
em Faller Angels, livro que clama que todos se solidarizem com ele, pois
somos todos, criaturas mortais e imperfeitas, ou melhor, anjos caídos.
Contudo, todas tentam colocar um pouco de humanidade ou fascínio para
a figura estudada, mas temos o exercício de uma figura inquestionável,
pela tradição e pela construção histórica,
revelando uma nova forma de se ver a crença cristã. óbvio
para um descrente, mas é apocalíptico para um religioso.
Um livro cuja leitura dará uma visão aberta aos desígnios
cristãos ou mais uma forma de critica ou ainda uma forma de torna-lo
ridículo perante os problemas atuais do planeta.
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Satã, Uma biografia
Autor: Henry Ansgar Kelly
Tradução: Renato Rezende
Globo Livros
388 páginas
2008
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