Texto de:
Silas Corrêa Leite |
  |
Livro "A Infância do Centauro", Poemas, Editora Escritura,
2007 As Louvações Viajosas dos Mandacarus Atônitos de José
Inácio Vieira de Melo 
"O coração vazio de angustia
E podermos cantar novamente
No silêncio da noite
E ver o homem do porto
Chorar de alegria nos braços a liberdade..."
(A Vida Nasceu do Êxtase, Walter Mendonça Sampaio)
Nesses tempos tenebrosos de precárias criações poéticas,
entressafra que boçais tipos de barriga de tanquinho e cérebro
de teflon (esquentam mas não aderem) lançam livrecos de ocasião,
eis que surge uma luz no fim do fútil: José Inácio Vieira
de Mello e o primor de seu "A Infância do Centauro", Poemas,
Editora Escrituras (SP), 136 páginas, em belo acervo gráfico-editorial
(um primor) além do conteúdo realmente espetacular no sentido
lítero-cultural do próprio fazer poético. Ah, e para não
dizer que não falei de cores e afins, linda capa (e projeto gráfico)
de Vaner Alaimo, ilustrações ricas de Juraci Dórea. Um
livraço assim é, em tanto esmero (parabéns Editor Raimundo
Gadelha), uma preciosa jóia literária em todos os sentidos.
José Inácio Vieira de Melo tem currículo, tem estrada,
tem estilo, tem talento potencializado pelo olhar açodado por uma extrema
sensibilidade viajosa, e assim vai destrinchando o vinho-verbo (vinho-versos)
das vinhas existenciais viçadas em peregrinações, mandacarus
atônitos, com suas louvações muito além das hortas
de covers que abundam pelaí. Códigos de romarias, retraduzidos
no letral, documentos-identidades de peregrinações como cadernos
de viagens...
Ele mesmo um cavaleiro com suas purgações, seus fermentos e seu
olhar a sondar cactos de vícios, tipificando remorsos, como se um retratista
de seu tempo e das amarguras do seu tempo. Já pensou? Poesia pura. Aliás,
José Inácio Vieira de Melo tira seda das pedras, sua poesia energiza,
nas criações feito um mandorová-camaleão tira tintas
das andanças. O marmóreo das criações, muito alem
da lanterna furta-cor de seu olhar sarado. Rastros de cisternas?. Poemas-toadas,
aboios plangentes, poemetos, "Peregrino de si mesmo/No meio da travessia"(pgs
118/119/120, Romaria), as léguas tiranas. Labuta uma roça de palavras.
Carrega sua lavoura com páginas de andanças, aqui e ali um produto
desses tempos insanos. Poemas e pés. E lácrimas. Reversos e memórias?
Já pintei José Inácio Vieira de Melo como um dos melhores
poetas contemporâneos que li, até porque, o nome se faz na construção
do hoje para o eventual e justo enlivramento histórico do devir. Da terra
de Jorge de Lima que considero o melhor poeta do Brasil em 508 anos, a senda
do José Inácio Vieira de Melo tem um tear de altíssimo
nível, talento e olho crítico, signico. Galopar nas palavras é
a sua metafísica?
Suas amarras íntimas e criacionais são dependuras no versejar,
um pós-cordel itinerante, peneirando juízos, intenções,
quireras de conflitos, trazendo as entranhas dos pensares para a poesia nossa
de cada dia. Lamentos, ofícios, moendas e engenhos. Releituras. Raízes
que andam. Agonias da terra. Significâncias e condições
humanas. Escrevendo ele faz chover canivetes, entrecortando imagens e palavras.
Amoras de ausências? A belezura dos registros. O poeta José Inácio
Vieira de Melo que foi ver o que é que a Bahia tem, nasceu em Olho D´Água
do Pai Mané, povoado de Dois Riachos, Alagoas, e por onde andarilha lavra
suas águas límpidas em poemas de quilate. "Ouço vozes
- muitas vozes/Dentro de mim mesmo/Todas dizem que é preciso prosseguir..."
(Pg 105/106, Memória). Pois é: escrever é preciso, viver
não é preciso...
Lendo a poética de altíssimo nível de José Inácio
Vieira de Melo, lembrei-me da música de Bjork (cantora islandesa)"
Perdi minha origem/E não quero encontrá-la/Eu me sinto em casa/Cada
vez que o desconhecido me rodeia" (Wanderlust). Paradoxalmente, no entanto,
José Inácio Vieira de Melo resgata e louva sua origem no que cria,
enlivra-se dela no "fazer poetico" propriamente dito, mas só
se sente em casa mesmo escrevendo seu tempo, seu lugar, seu espírito
aguçado, e toca o desconhecido com suas perguntações, pontuando
as léguas tiranas, afinal, longe de casa, não é longe de
si, mas um reconstruir o longe para lavra criaciocional vivenciada no ser de
si, quase self.
A Poesia de José Inácio Vieira de Melo entoa, faz bem, aplaina
momentos que resgata, como se decifrasse a sede da seda, na sua náutica
louvação/peregrinação/criação (anagramas
amalgamados), tudo a ver, tudo a ser, tudo a ler. "O chocalho, no pescoço/Da
vaca, anuncia:/-Eu estou aqui!/O relógio, na parede/Da cozinha, adverte:/-Não
escaparás! (pg 41, Diálogo). Bravo!
Nesses tempos pós-modernos de cincerros com grifes (i pod, celulares,
mp 3,4,5), range a rede de criação - escrever é para quem
se distancia da manada - e brilha quem tem asas na alma. Os mandacarus atônitos
ainda que cactos vítreos dão frutos de palavreiros. O cálice
transborda como seda pura em papel de arroz com imagens poéticas vibrantes.
A infância é tudo aquilo que trazemos conosco, naquilo que somos,
naquilo que não cabemos em nós, naquilo que perdemos, naquilo
que fermentamos entre tantas purgações existenciais? Ainda bem
quando grandes poetas refazem suas íntimas trilhas fazendo versos e movendo
moinhos letrais. O tecido irreversível da alma toca o fio-terra do verbo
viver a self aberto: eis o livro, eis a obra, eis o poeta: A Infância
do Centauro José Inácio Vieira de Melo semeando sarças
ardentes.
A Infância do Centauro Autor: José
Inácio Vieira de Melo Editora Iluminuras
136 páginas.
2007
|
|