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Silas Corrêa Leite
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"Retratos" Reunidos na Poética de Antonio Miranda


Um amigo é um tesouro. Até mesmo um virtuoso amigo virtual. Um livro de poesia vale ainda mais que ouro. Se for presente de um escritor de porte, então, a honra é nossa. Pois Antonio Lisboa Carvalho de Miranda - esse é o nome - me mandou graciosamente o seu precioso livro chamado "Retratos & Poesia Reunida", bancado pela Editora Thesaurus. E deliciei-me.

Originário das plagas do Maranhão, mas cidadão do mundo que me faz lembrar um Carlito Tropical, Antonio Miranda pervagou por esse mundão sem porteiras, tornou-se mestre em Ciência da Informação e doutor na área, sendo catedrático na Universidade de Brasília, onde por certo ancorou o facho e testemunha deslizes de majestades liberais.

Nesse corre-mundo, escreveu romances, novelas, contos, teatro, tendo onze edições em português e espanhol. Nesse obra, "Retratos..." o autor respiga poemas de sua safralavra, é realista, coloquial, questionador e aqui e ali até mesmo alírico, a palo seco, como bem o registra o crítico Xavier Placer.

Faz poemas para Borges, Calvino, Kavafis, Malthus e Affonso Romano de Santana, destrincha falatórios-poemas de ótimo nível, culto e grasso. Seu verbo-veia flui, sua poética move quadros-cinéfilos com óticas que rastreiam o ser e a imperfeição do ser. Agnóstico, transcendente, destila-se e debulha a dor perolizada, a perversão social do humanus e suas mazelas. Vai fundo no seu bisotê-estético em rompantes de amarguras e desamparos auto-estigmatizados.

Uma coletânea de poemas-vivênciais, pirambeiras sem rimas, miosótis delicados, feito mesmo um mosaico de despojos residentes como lampejos de avaliar seu tempo tenebroso. Ai de si! O labirinto do desespelho. A transição do desvendamento. Um poeta com surto-circuito, inquieto e arredio, a rodar seu maquinal Super Oito nos versos ferrenhos. Pesando estimas. A afirmação da negação, no liquidificador das idéias mirabolantes que saem biscoitos finos. Ave Oswald. Pós-oswaldiano? Possa ser. Cita com propriedade de estirpe de Mallarmé a E. Cummins, de Bilac a J. G. De Araújo Jorge ou Maomé, não sabendo no que se re-colhe ou se reconhece cara a cara ipsis-literis. Poesia pura.

"Retratos" são rios perdidos nas margens plácidas de requebrados retumbantes, relembra, reformador, lavrando pós-memórias na geografia dos inválidos e suicidas. Fala de Dante, de Mazzaropi, o seu lambe-lambe é o divino close do olhar mágico/trágico nas aparências de enganam. Transgride com estilo. Toca o indizível sem retoques. Qualquer que o conhecesse assim, inteiro e completinho da silva, jóia rara, sairia bem esgotado de tantos signo-ficantes. Gostaria de ler toda a sua obra para me dar por satisfeito. Será o impossível? Como é que pode tanto? Vá saber. Tudo a ler. Li-o e vi-o quadro a quadro, porta-lapsos. Olho no lirial. A mão que balança o verso, no avesso do haver-se, na avenca dolorida, no ôntico timbral, pan-concreto e meio auditor do circo dos horrores (entre a banda dos contentes) que é o vinho-verbo dos vícios-clips de sobre/sub-Viver. Taí. Às vezes lírico, sim, noutras narrativas, viscoso, escorregadio para gáudio da poética propriamente dita. Delírios? Uma coreografia de olhar perene; sua poética de sangue cênico? Benza-Deus.

Às vezes realista, noutras vezes saudoso-romântico, querendo refazer o mundo de si para si, vai tocando seu fado-algoz, nas retratanças do ser que lhe cabe nesse latifúndio. Arde e geme os versos de fogo-fáctuo. Recolhes de quando era (e é) criança-jovem-adulto (as paredes das memórias) ator-dramaturgo de olho no desmundo. Quase um desmanche de si para ver-(ter-se). A poesia seria a ossatura-pandora de sua alma caramelo-peregrina, ou um mero carnegão de seu múltiplo-em-si-mesmo? Vá saber.

Ele é ator, midiático, portanto. Todos os olhos, todos os olhares, prismas e revelações. Multi-meio. Todas as tormentas.

O livro, só um mero e ermo palco, feito um não-lugar para não ser? Numa dialética de pardal em desconstrução de alicerce imagéticos em monólogos. Que ele recompõe, retoca (retoca-se?), gota a gota, como um Goto, esperando Godot. Tomo a tomo, sem ser átomo. Palco a palco. E seus cantares viscerais sem plano de fundo. Catarses sem Cartazes. O jogo de cena no olhar buscando as coxias da alma sovada em tralhas tortas? Às vezes sai-se de cena quando escreve, residente nesse mondo cane feito um gárgula entre palhaços liberais e palácios de podres poderes que achincalha muito bem. Paisagens na janela. Decotes do ser-se de si. A consciência do belo e do crível. A inércia da demanda, a fragrância do corpo exalando a louvação-coivara: poemas vinagres. Ora Cardenal, ora Gardenal ou Comital - quem sabe o dezelo íntimo do palco-íris do arquivo neural e um refluxo recorrente de códigos legados pelo DNA talento-produção? Lendo Antonio Miranda, você se surpreende a cada página (de rosto?) e, sim senhor, sonha seu diário de clássicos como rascunhos de manga-rosa. Ou, vá lá, pesa: alguém assim tão producente não existe. Existir é resistir? A que será que se destina? Viver é lutar? Olha o poeta. Só pode ser talento puro. Pois é. Ele inventa o que é real. Pode? Toma a realidade - às vezes lembra en passant Clarice Lispector se fosse fazedora de bioversos - e o que encilha é existência, havência que seja. Feroz? Mordaz? O livro que o reúne sem sextante, é retrato fiel de si, quase que um filme-mundo-da-caverna (Platão) em alguma cilha de sua alma nau.

Antonio oficineiro é macaco velho de entalhes-engastes de existir, tirando a polenta que desandou da alma para revelar-se no ocultismo tácito das idéias pegajentas mas ainda assim mirabolantes, polivertentes. E dá-nos o seu melhor nessa espécie de antologia de andanças evolutivas. Faz jornal, teatro, improviso de jazz etílicos nos poemas, e ainda fez sucesso nas minhas releituras de vislumbres indeclaráveis. Um poeta como esse era para ser parado na rua e chamado de fabulário, encantador de serGentes, ventríloquo xadrez, montanha azul, identidade do abstrato, código do absinto e vai por aí a peleja-macadame. O avesso do avesso do avesso. Como Drumond, Balzac, Lorca, Almodóvar, Antonio Miranda, esse totum top era para ser pop. Tem parceria com jazidas, tem parecenças com quilate ideais. Leiam-no a sós como um fósforo enlivrado, esquisitos de si mesmos, esquecido de serem seres, quesitos de vaidades à parte, e tenham piedade dos registros em preto e pranto, os maravilhosos 3 X 4 dele. Os veios justificam os filmes-poemetos. No Caso de Antonio Miranda sim. Fiquei lanterninha de carteirinha de seu cinema-mundo. Não apaguem a luz que o flash ainda dói. Olha o passaredo. Clic!


  Retratos & Poesia Reunida
Autor: Antonio Miranda
Editora: Thesaurus Editora
 



 
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