Texto de:
Madalena Barranco |
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Resenha do livro "APOENA - o homem que enxerga longe"
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As memórias do sertanista brasileiro Apoena Meirelles, filho de Chico
Meirelles, também sertanista, contadas por Apoena e sua mulher, Denise
Maldi, numa série de entrevistas à jornalista Lílian Newlands,
com a participação do repórter fotográfico e escritor
Aguinaldo Araújo Ramos, sendo que os autores, também nos brindam
com seus depoimentos. Apoena foi assassinado em outubro de 2004, depois de uma
vida inteira dedicada aos índios brasileiros. Sua mulher também
faleceu, vítima de câncer em 1996.
Apoena, como diz o próprio nome na língua Xavante: "aquele
que enxerga longe", junto com seu pai, os Meirelles, defenderam a integração
dos índios à sociedade, de forma gradual e sem perder a identidade,
primando pela demarcação de suas terras de forma a protegê-los
das invasões, e pela instalação da infra-estrutura necessária
assim como escolas e postos médicos. Dessa forma pretendiam fornecer
condições futuras, para que os índios pudessem interagir
entre mundos tão diferentes. Já, outros sertanistas, os Villas-Boas,
defendiam a tese de que os índios deveriam viver plenamente sua cultura
em reservas protegidas, mantendo a pureza original à parte da sociedade.
O tempo provou que os Meirelles estavam certos, pois o avanço do progresso
não faz distinção entre os povos...
No dia em que Apoena, recém casado com Denise Maldi, foi com a mulher
pela primeira vez a trabalho no Mato Grosso, onde fazia-se um trabalho de pacificação
dos índios Kren Akarore, na denominada frente de atração,
o leitor sente a força de Apoena e de Denise aliada ao amor que os uniria
por muitos anos. Denise nunca fraquejou, nem quando os mosquitos a devoravam,
porque ela, assim como ninguém mais, conseguiria decifrar totalmente
os enigmas da mata. Apoena perdeu amigos sertanistas assassinados pelos índios
e também pelos homens brancos. Um dos autores do livro, o Aguinaldo,
quando esteve em visita com Apoena e a jornalista Lílian no território
dos índios Cintas-Largas, relatou a triste experiência de conhecer
o local em que o indianista e ex-jornalista Possidônio Cavalcanti foi
massacrado pelos índios. Lá, o autor sentiu que era perfurado
pelo olhar de um povo sufocado pela civilização.
O livro deixa patente a luta de Apoena em meio ao caos do choque de culturas,
do desamparo da FUNAI, e das miseráveis condições de trabalho
que enfrentou para cumprir sua missão, onde antes de ser sertanista,
Apoena foi um ser humano e amigo verdadeiro dos índios e da preservação
do direito de todos à vida. No breve período em que Apoena assumiu
cargos burocráticos, ele conseguiu a descentralização da
FUNAI, fazendo o órgão ir até os índios. Hoje em
dia os índios ainda enfrentam inúmeros problemas relacionados
à invasão, à miséria e outros mais, que também
atingem a sociedade de modo geral.
Minhas observações: o leitor viaja encantado num misto de pavor,
através de várias incursões pelas florestas do Brasil,
ora a pé, ora a barco, enfrentando cachoeiras e perigos inusitados, onde
a exuberância da mata convida a um banho em igarapés cristalinos,
mas onde também se escondem perigos, como as mortais arraias dos rios.
O choque das águas entre dois rios, melhor dizendo, entre duas culturas,
provoca o caos - o índio luta para preservar sua existência enquanto
rende-se ao progresso. Será tudo isso apenas um trágico poema,
onde quem escreveu o último verso foi Apoena?
APOENA - o homem que enxerga longe Autores: Lílian Newlands e Aguinaldo Araújo Ramos
Editora da UCG - Universidade Católica de Goiás
Ano: 2007 |
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