Texto de:
Cadorno Teles |
  |
Cobras e Piercings
- Um livro de Hitomi Kanehara -
 |
"Seus dedos percorreram minha jugular aumentando gradualmente a pressão.
Até que os dedos delgados de Shiba fincaram em minha carne. Ele permanecia de
pé, me olhando de cima para baixo e eu podia notar as veias pronunciadas dos
seus braços. Meu corpo demandava oxigênio e era açoitado por breves espasmos.
Minha garganta grunhia, meu rosto se comprimiu " (p.40).
O texto acima é um bom exemplo do realismo pós-moderno freqüente na atual
literatura. Bem diferente de outros temas que vigoram na ficção, como a luta do
homem por seus ideais, para vencer a natureza, com seus personagens adquirindo
experiência através de seu próprio esforço, a ficção assim chamada pós-moderna
é cria, banal e assustadora, não se concerne a um desenvolvimento ou a uma
maturidade de seus protagonistas, mas à vulgaridade, à exclusão e a imoralidade
de seus atos. O romance Cobras e
Piercings [ Hebi ni Piasu (蛇にピアス) tradução de Jefferson José
Teixeira, 128 pp, R$ 29,90] cujo texto citado foi retirado, segue esse modelo
realista brutal. O livro é o primeiro da jovem autora japonesa Hitomi Kanehara, um sucesso
internacional dessa escritora, que recebeu o premio literário mais importante
do Japão.
A história é narrada por Lui Nakazawa, uma jovem de 19 anos, recém-saída da
adolescência, mas ainda com os problemas sentimentais e existenciais da idade,
para dar um exemplo se considera órfã, devido a incompreensão familiar em
relação ao seu estilo de vida. Considerada uma "patricinha" "barbie
girl" pelas amigas, trabalha como acompanhante de festas, porém nada
na sua vida a entusiasma. Contudo ao conhecer o punk Ama (Amada Kazunori) em
uma balada tecno, acaba conhecendo um outro modo de ver o mundo. Algo de
diferente e bizarro a atrai, pode ser a tatuagem de dragão que ele verga nas
costas ou a língua bifurcada que o punk possui, mas o estranho lhe encanta e
acaba se relacionando com ele. E resolvendo compartilhar o sentimento com o
novo namorado, Lui decide radicalizar quer fazer uma tatuagem idêntica a de Ama
e bifurcar sua língua no melhor estilo body modification.
Ama a leva para conhecer um amigo seu, um tatuador, Shiba (Shibata Kizuki), um
sádico com piercings espalhados no rosto todo, que iniciará o processo dos dois
"trabalhos" em Lui. Um triângulo amoroso se inicia, Lui é amada por
Ama, mas sente-se ligada às perversões e ao bizarro lado sexual que Shiba
transparece. Logo o preconceito é quebrado, e a garota se envolve com o sádico
tatuador, vivendo um sexo que segundo ela banal com Ama e pérfido com Shiba,
que trata de forma violenta. A prática e o impulso masoquista de Lui colocam-na
junto ao desejo de morrer e ser morta pelo horishi body piercer. O prazer de Lui cresce, mas quando o processo de alargamento da língua,
Ama é encontrado morto, vítima de torturas horríveis. E um sentimento
inevitável aparece, saber que poderia estar com o homem que teria matado o seu
namorado, no momento que ela realmente descobria o amor que sentia por ele.
Um livro que descreve os caminhos radicais que os jovens de hoje traçam em
busca de identidade. Aparências e rótulos, body modification (piercings,
quelóides, split tongue) são ambições que crescem a cada nova tatuagem ou metal
colocado, mesmo que seja uma mudança superficial, alguns jovens que curtem
essas modificações buscam sobressair perante os outros, tendo um comportamento típico
e danoso aos olhos da maioria das pessoas.
Kanehara cria nesse romance curto, de apenas 128 páginas, um conto sobre
assassinato, sadismo e um estranho, perturbado e mordaz retrato, como uma
graphic novel, da cultura contemporânea japonesa juvenil. Não é uma ficção
convencional, mas um vislumbre, sem caricaturas da dinâmica psicológica de
personagens que realmente pode existir.
Para leitores aventureiros uma ótima dica, vale conferir, especialmente por ser
o primeiro trabalho de Kanehara, que tem uma carreira promissora pela frente.
Cobras e Piercings
Autora: Hitomi Kanehara
Tradução: Jefferson José
Teixeira
Editora Geração
128 páginas
Ano: 2007
|
|