Texto de:
Língua Geral lança segundo romance de Ana Paula Maia, A guerra
dos bastardos
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Escritora é precursora de folhetins pulp para a internet
Arrojo, inconformismo e muito estilo são características da literatura
de Ana Paula Maia, desde as primeiras linhas escritas pela autora fluminense
para a net brasileira, batizadas de folhetins pulp, até o seu début
impresso em O habitante das falhas subterrâneas (2003). Obras que
deixaram nomes como João Gilberto Noll, Marcelino Freire e Luiz Ruffato
impressionados. A Editora Língua Geral lança agora a segunda
obra da romancista, A guerra dos bastardos, parte da coleção
Ponta-de-Lança. "Neste livro o que mais existe são homens
de espécie diferentes. Um punhado de bastardos vistos de modo peculiar",
aponta Ana Paula.
A guerra dos bastardos é um romance urbano, bem-humorado, emocionante
e violento. Mais do que degenerados, encontram-se personagens frágeis,
inseguros e solitários, que canalizam suas frustrações
em gestos desmedidos e inconseqüentes. A psicologia dos personagens é
tecida mediante descrições breves e pungentes. Nesse sentido,
a narrativa da escritora parece sair das telas do cinema: um personagem toca
um serrote e detona-se uma gama de sensações aos olhos de quem
lê a cena.
A obra revela uma conjunção de matrizes: o tom tragicômico
lembra as cores fortes de Almodóvar; o ritmo fluido, vibrante, parece
o rock-jazz de Miles Davis em seu Tributo a Jack Johnson, grande boxeador negro;
a luz ofuscante, lançada à intimidade sórdida de seus personagens,
remete os mais atentos a pop art de Andy Warhol ou à colisão plástica
de Francis Bacon; o estilo despido de ornatos é vizinho das narrativas
de Kerouac.
Um dado significativo, que particulariza a violência urbana desse romance,
é o fato de sair do cenário das favelas. Os personagens estão
no asfalto, trabalham no coração da cidade, estressam-se como
um secretário de empresa multinacional. Os criminosos parecem homens
comuns, exauridos por um cotidiano maçante. O ator de filme pornô
sente-se esgotado depois de tantas ereções; a boxeadora talvez
prefira uma casa no campo, por mais que tenha amor pelo punho em riste. É
dessa maneira que A guerra dos bastardos absorve os leitores.
Texto da orelha do livro assinada por Santiago Nazarian:
"A maleta aberta e vazia permanece respingada de sangue sobre a mesa. No
chão, próximos aos pés de Salvatore, uma bolsa de náilon
vermelha semi-aberta. Amadeu abaixa-se para abri-la e, numa primeira revista,
não lhe diz nada. São pacotes pequenos e bem fechados, pacotes
que ainda não sabe, mas mudarão algumas vidas."
Ana Paula Maia é uma pistoleira. Não sei exatamente se "no
bom sentido", pois então qual seria o mal? O que importa, é
que ela tem munição, tem pontaria e não tem medo de apertar
o gatilho, provando ser uma escritora matadora. Neste seu segundo romance, narra
a saga de homens perdidos, assassinos, traficantes, cineastas da boca-do-lixo
que tentam salvar suas peles sempre das piores maneiras possíveis. Tudo
começa quando Amadeu, um decadente ator pornô, encontra uma sacola
cheia de cocaína, no escritório de seu poderoso patrão.
Tentando repassar a mercadoria, ele vai cruzando, trombando e atropelando personagens
insólitos: Horácio, um pobre operário do cinema brasileiro;
Edwiges D'Lambert, uma produtora manca e mafiosa; Gina Trevisan, uma boxeadora
esmurrada pelas dívidas; além de, quem sabe, açougueiros,
ladrões de órgãos, uma pompoarista cuspidora de fogo. É
uma verdadeira guerra do submundo, que parece pronta a virar filme. Inteligente,
divertido, kitsch, "A Guerra dos Bastardos" revela uma jovem autora
que sabe muito bem o que está fazendo, e é disparado a melhor
contadora de histórias desta geração.
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