A Garganta da Serpente
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Romance "A Rosa Verde" de Carlos Henrique Schroeder

"Nascemos para o encontro com
o outro, não para o domínio
(...)"
Hélio Pellegrino

O romance moderno de Carlos Henrique Schroeder, "A Rosa Verde" (Editora da UFSC em parceria com a Editora UNERJ) que também é dramaturgo e roteirista, invoca memórias reinventadas ou um importante refluxo de certo arquivo neural em vetor recorrente, re-produzindo fatos estupendamente reais do histórico de um povo, de um tempo, de um lugar? Tudo isso e muito mais.

A década de trinta e suas rupturas institucionais, historicidades plantadas num gomo da vida sulista, traumas, seqüelas, barbaridades e memórias hospedeiras. Jaraguá do Sul, Santa Catarina, terra residencial do autor, palco e curtume de virações. Personagens e assassinatos, datações e contações, um romance peculiar que vai e volta na calça curta do tempo, com as releituras como cetras espinheiras que atiram flashs de acordo com a peculiar linguagem gostosamente viçosa do escritor em ritmo de pensagens feito prosa rica.

"Quando a economia capitalista entra em colapso, e a classe trabalhadora marcha para o poder, então os capitalistas se voltam para o fascismo" - diz Leo Huberman, in, História da Riqueza do Homem (Zahar Editora), e aqui o retrato em preto e branco é pintado entre o fim das oligarquias da era café-com-leite (São Paulo e Minas Gerais em panelas políticas) mais a proletária República Varguista e seus meandros danosos em antros de escorpiões, como a Ação Integralista Brasileira, da grave extrema-direita e seus chamados camisas-verdes. Tudo em terras de Santa Catarina. A nova classe dominante emergente pondo as mangas de fora.

Época de Hitler, Mussolini, Franco e a rastaquara versão tupiniquim do pseudomessiânico Plínio Salgado, mais o romântico personagem Bertoldo sob a égide da tríade Tradição, Família e Propriedade (que em 1964 no golpe de primeiro de abril também foi reforçada pela falsa Redentora de 64 com a mesma ótica extremista), entre personagens fictícios, cenas poéticas, a psicologia de um e outro instante-trevas, diálogos e fixações. Jaraguá centro, alvo e pano de fundo.

Carlos Henrique Schroeder aqui e ali inverte a lógica romanceira, processa uma construção narrativa como se em fragmentos de tempos idos e presentes, vale-se bem de uma metalingüística gostosa, cria andaimes próprios de quem até muito bem constrói uma obra-livro para contextualizar suas histórias, pessoas, loucuras, devaneios - por que não? - e faces aqui e ali absurdas nos pântanos de nossa populista ditadura-democrática, ou mesmo dessa nossa atual democracia midiática que lamentavelmente ainda não preconiza uma comunitária democracia social. Pautar a história brasileirinha é apontar o câncer da ilogicidade ético-humanista?

Um filme noir, os sinos plangentes entre plagas sulistas, fotogramas de quando o mesmo sol se levanta e se põe; os gatos pardos dos lances históricos entre histerias e utopias fundadas em extremos, retratos sim, de um país quando ameaçada a funesta pequeno burguesia em seus interesses produtivos-lucrativos. Tempos tenebrosos. Há um lado meio Hemingway no autor também? Páginas de rostos. Salvos do incêndio. Os tambores silenciosos bombam idéias em grandes seres críticos quando ameaçados. Registrar é produzir arquivos de letras e textamentos.

Se o céu da boca é a parte mais suave da cabeça, as idéias claras trazem cenas nuas de tempos, de locais, de pessoas e, claro, de arbítrios quermesseiros também. Jaraguá do Sul foi palco circunstancial e nesse jogo cênico do autor, as rosas verdes nos remetem a tempos em que resistimos, apesar de tudo, para, enfim, também darmos nessa frágil democracia meio rosa chá, meio rosa verde, porque a madurança é estigma da história oficial, da história oral, do próprio romance que mistura uma coisa e outra, dando testemunho de que a palavra romanceada ainda é uma arma branca, limpa, altamente funcional e alimentadora de, no devir, termos vividamente uma política realmente ético-humanista. A base correta para a narrativa é a compreensão estilística da abordagem técnico-criativa.

Oscar Wilde dizia que o mundo era um palco, mas que o elenco estava mal dividido. Deve ser isso. Carlos Henrique junta peças, nomes e fatos, elenca potenciais e tramas, quando ao mesmo tempo nos prega uma peça novelística romanceada de uma forma diferente e, certamente com embasamento de roteiro fílmico. Darcy Ribeiro dizia que o Brasil é um moinho de gastar gente. Carlos Henrique reafirma isso na sua prosa moderna e cativante. Pedro Juan Gutierrez (in, O Ninho da Serpente) diz que é preciso construir um universo próprio e depois esconder os andaimes. A Rosa Verde é um universo todo peculiar e todos os seus andaimes expostos também, nódoas e nódulos. Orides Fontela diria de tudo isso: "O abismo/Atrai o abismo/Caio em mim."

Contar é registrar. Cair em si. Passar pelo ralo do crível, o absurdo de épocas conflitantes e pragmatismos popularescos. A massa de manobra. O homem dentro dos acontecimentos. O escritor registrando a historicidade nua e crua. O trabalho de quem sabe o que faz e faz bem. A Rosa Verde é a purgação da história que nos leva a concluir que a maduração vem também a partir do deleite de ser e de criar, de pensar e de resgatar, até porque, ainda "resistir é preciso", e, mais do que nunca devemos sempre enlivrar as acontecências de nosso meio e raiz - e seus fantoches de ocasião - como uma magna forma de darmos testemunho de sensibilidade literária à flor da pele. Parafraseando Tolstói, podemos afirmar que cantando o nosso estado (no amor e na dor do hediondo carnegão que seja) também somos eternos tabuleiros de fatos e das excentricidades de fatos.


A Rosa Verde
Autor: Carlos Henrique Schroeder
Editora da UFSC em parceria com a Editora UNERJ

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