Texto de:
Ivaldo Gomes |
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Um contador de histórias
Conheci José Bezerra Filho há pouco tempo. Sempre ouvi falar dele
como o 'cara que fez junto com Waldemar Solha o primeiro longa metragem da Paraíba,
o filme: O salário da morte'. Que também só vim
ver agora em janeiro de 2011. Falar de Zé Bezerra, como é mais
conhecido, não é fácil. Justamente por ser ele uma pessoa
muito simples, mas por suas múltiplas qualidades, fica difícil
defini-lo em poucas palavras. É músico, escritor, poeta, cineasta,
ator, diretor, autor teatral, excelente tenor e extremamente boa companhia.
É de um humor perspicaz e de generosidade grandiosa.
Acabo de ler o seu livro: O Decifrador de Sonhos. Onde ele conta em forma
de ficção, a vida de sua família, de amigos e vizinhos
num Bairro da Torre nas décadas de quarenta a sessenta do século
passado. Uma história real, permeada de estórias engraçadas
e causos dos mais variados. O que nos chama a atenção nessa leitura
é o jeito de contá-la. De logo, percebemos que estamos na presença
de um escritor do seu tempo, com uma linguagem própria e muito emotiva.
Por vários momentos e em várias situações os olhos
se enchem de lágrimas ao sabor da forma comovente em que ele descreve
tanta injustiça, pobreza e miséria de uma família que espelha
bem a realidade de uma Paraíba daquele tempo. Uma pobreza de posses materiais,
cercada e embebida por pessoas riquíssimas de sentimento, amizade e solidariedade
acima de tudo. Em todos os momentos da sua narrativa, a solidariedade humana
é a moeda de troca de seus personagens.
O Decifrador de Sonhos, título atribuído ao impagável personagem
Zé Bode, que se descreve em personagem surreal, onde a ignorância
é misturada à esperteza. Uma espécie de João Grilo
consagrado na nossa literatura popular por Ariano Suassuna em seu Auto da Compadecida.
Zé Bode, além de decifrador de sonhos para fins de jogo de bicho,
faz também o papel do 'intelectual orgânico' descrito por Antônio
Gramsci. Seu Zé Bode sabe tudo e explica tudo, mesmo sem saber de muita
coisa. Um talento enciclopédico forjado nas leituras das estampas que
vinham nos sabonetes Eucalol ou dos Almanaques Capivarol de 'conhecimentos gerais'
tão em moda naquele tempo.
Mas o que mais me chamou a atenção foi o sentido humano, amoroso,
solidário dos personagens. Que mesmo envolto na miséria não
se comportaram como miseráveis. E o tempo todo, até por instinto
de sobrevivência, dividiam o que não possuíam de material,
mas que sobrava em sentimentos nobres de acolhimento e solidariedade. Com certeza
estamos de frente de uma obra que merece ser lida por todos e adotada nas melhores
salas onde a língua portuguesa é falada, dialogada, ouvida enquanto
recurso de comunicação.
De Zé Bezerra já me considero amigo. De sua literatura considero-me
fã. Só espero que você também tenha a sorte de por
a mão em alguns de seus escritos. Pois com certeza você vai se
deparar com um universo rico de descrições, hilárias estórias
e histórias, que ele sabe contar como ninguém. Tai um nome para
compor a Academia Paraibana de Letras, hoje infestada de 'imortais' sem livros.
O Decifrador de Sonhos é com certeza um momento ímpar da literatura
paraibana.
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O Decifrador de Sonhos Autor: José Bezerra Filho Taba Cultural Editora
2009
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