A Garganta da Serpente
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Arlindo Gonçalves Marrão Júnior
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Morte, tu abates num só dia
O rei ao abrigo de sua torre
E o pobre em sua aldeia.
Tu vagas sem fim noite e dia
E exortas cada um para
Que dirija a Deus seus atrasados.
Morte, manténs a alma em servidão
Até que ela se livre
E pague sua dívida sem retorno.
Tomar emprestado à alma é pouco prudente,
Ela não tem nada para penhorar,
Pois está nua no último dia.

(poema de Hélinand de Froidmont)



Os Versos da Morte - Arlindo Gonçalves (15.02.03 / 14.03.03)
 

OS VERSOS
O primeiro contato que tive com Os Versos da Morte (1194 -1197), do monge e poeta Hélinand de Froidmont (1170-1230), foi por meio da pequena e bela edição brasileira de 1996 feita pela Ateliê Editorial e Editora do Imaginário.
Com tradução e apresentação de Heitor Megale, professor de filologia e língua portuguesa da USP, a obra foi-me apresentada pela Luciana que é fascinada por poesia, por livros pequenos e pelo tema em si: a representação cultural da morte, da finitude.
Engana-se porém, quem acha que a obra é apenas uma ode mórbida, uma adoração à morte por si só. Em uma leitura rápida na didática apresentação feita pelo professor Megale, descobrimos que a morte, representada por um esqueleto empunhando uma foice, remonta ao centenário compreendido pelos anos de 1150 a 1250 da era crista e que Froidmont produziu o primeiro testemunho literário dessa imagem mítica.
Difundidos, glossados, imitados na posteridade e usados em sermões, Os Versos da Morte, segundo Megale, serviram também para animar os cavaleiros durante as Cruzadas o que lhe valeu outro nome, Cântico das Cruzadas. Neles o poeta contata a Morte e com respeito a encaminha para encontrar e encerrar a Vida. Nesse caminho serão encarados bispos, trovadores e burgueses de toda ordem. A eles a Morte dará o recado de Froidmont: a secular denúncia contra a indiferença religiosa, o desprezo pelos menos afortunados, a insensibilidade política e a falta de respeito para com os seres humanos.

AS IMAGENS
Essa edição de Os Versos da Morte vem acompanhada de belas e fortes ilustrações datadas entre 1463 a 1696. Em todas elas vê-se o clima pesado, alucinante e profético que Froidmont trabalhou em sua obra.
Arrebatado pelas ilustrações, pensei em fazer uma releitura do poema utilizando imagens que demonstrassem um ponto de vista pessoal, muito diferente e distante da época das referidas ilustrações.
A Morte, nesse meu pequeno ensaio, deixa de lado a figura da caveira com a foice e passa a ser representada por imagens de árvores, galhos, lagos sujos e postes velhos. Registros carentes da presença humana, como se a missão proposta séculos atrás por Froidmont enfim tivesse sido totalmente cumprida.

(Arlindo Gonçalves)

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