A Garganta da Serpente
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La Fontaine
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Jean de La Fontaine


O pavão queixando-se a Juno
(La Fontaine)

A Juno o pavão se queixa
Dizendo - "Ó deusa celeste,
Com razão de ti murmuro
Pela má voz que me deste.

Sou ave tua, e se quero
Entoar os teus louvores,
Estrujo os campos em torno
Com meus guinchos troadores;

O rouxinol tão mesquinho
Deleita, se a voz levanta,
É honra da Primavera,
De ouvi-lo o mundo se encanta!"

Irada lhe torna Juno:
"Cata-te, néscio invejoso!
Por que desejas as vozes
Do rouxinol sonoroso?

De ricas pedras ornadas
Não parece a cauda tua?
O listrão do Íris brilhante
Em teu colo não flutua?

Ave nenhuma passeia
Que tanto pareça bem;
Em si ninguém reunir pode
Quantos dotes os mais têm.

Repartiu seus dons com todos
A profícua Natureza;
As águas coragem deu,
Deu aos falcões ligeireza;

Por presságio o corvo grasna,
O môcho nas mortes pia,
A gralha males futuros
Com seu clamor pressagia.

Do que são se aprazem todos;
E se torno a ouvir queixar-te,
Dar-te-ei voz de Filomela
Mas hei de as plumas tirar-te".

Não quis o invejoso a troca;
Que é nosso instinto invejarmos
Sempre o que os outros possuem,
Sem o que é nosso largarmos.

(fonte: "Fábulas de La Fontaine". Tradução: Curvo Semedo
Rio de Janeiro: Editora Brasil-América - EBAL - SA, 1985)

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