A Garganta da Serpente comemora agora em fevereiro dia 18,
seu 4º aniversário na rede. Um bélissimo site, de muito bom
gosto, e que sobrevive até hoje sem qualquer espécie de ajuda
ou patrocínio. Uma prova viva de que a poesia não está morta,
e que há muita gente admirável lutando pela arte e cultura em
nosso pais. É o caso da Agostina Akemi
Sasaoka
, que mantem sozinha o site ( Leia
entrevista logo abaixo ). O Garganta da Serpente já conta com
quase 400 autores do Brasil e de outros paises. Também dispões
textos de Imortais, que compartilham com autores desconhecidos
o mesmo direito de expressão. Por isso aproveitamos para dar
os parabéns antecipados a Sra. Agostina e ao Garganta da
Serpente
http://www.gargantadaserpente.com/
ENTREVISTA COM AGOSTINA, DO GARGANTA DA
SERPENTE
Balacobaco ano VI - número 52 - Rio de
Janeiro, 26 de janeiro de 2002.
Agostina Akemi Sasaoka nasceu em Campinas, São Paulo em
1977. Começou a estudar desenho e pintura antes mesmo de se
alfabetizar. Assim que aprendeu a ler e escrever, começou a
devorar todos os livros que encontrou pela frente e começou a
escrever seus primeiros poemas e canções. Estudou flauta doce
e formou-se no curso técnico de piano.
Em 1995, mudou-se para a cidade de São Paulo, para cursar a
Faculdade de Direito da USP, no Largo do São Francisco. Depois
de formada, começou a trabalhar profissionalmente com a
Internet, como webmaker e depois como webdesigner e arquiteta
de informação.
Publicou seu primeiro livreto "Poros" no final de 1997 e
desde fevereiro de 1999 administra o website literário "A
Garganta da Serpente", dedicado à divulgação de novos
talentos.
1.Como surgiu o site?
A Garganta se abriu na madrugada de 18 de fevereiro de
1999, trazendo a Serpente. Começou como um site estritamente
pessoal, no intuito pretensioso de divulgar o que chamo de
minha poesia. Fomos rastejando devagar, entre as hospedagens
gratuitas, começamos a receber visitas e poemas de todos os
cantos do Brasil (e até de outros países) e a necessidade de
crescer foi tão natural quanto impossível de deter.
Atualmente, o trabalho de divulgação literária está em
primeiro plano.
2.Por que o nome e a temática do site tem a haver com as
serpentes?
Digo no site que "o sol me fez taurina e a lua de 1977 me
fez ofídio". Pois bem, a Astrologia diz que o principal órgão
dos regidos pelo meu signo solar de Touro é a garganta. Por
outro lado, no signo lunar do meu ano de nascimento (mais
conhecido como horóscopo chinês), sou serpente (ou cobra, como
queiram). Desde que andei estudando um pouco mais sobre meu
signo lunar, acabei assumindo o símbolo milenar da serpente
como meu animal protetor, talvez numa espécie de xamanismo
inconsciente.
Na hora de fazer o site, fiquei dias e noites em crise
pensando num nome, algo que me identificasse sem que
incorresse naquelas obviedades do tipo "website pessoal da
Agostina". O nome surgiu por acaso - talvez ele estivesse
sempre ali, esperando que eu tropeçasse nele.
Nas primeiras versões do site, havia serpentes espalhadas
por todos os lados. Recebi muitos e-mails de pessoas com pavor
de répteis, cuja curiosidade precisou vencer o medo de
explorar o site. Para não assustar mais as pessoas e tornar o
site mais democrático e convidativo, as imagens de ofídios
foram desaparecendo aos poucos. Afinal, "A Garganta da
Serpente" não era mais um site pessoal, ou o meu site
pessoal, já tinha se tornado uma entidade com vida própria,
que periodicamente troca de escamas, de acordo com os desejos
e anseios de nossos visitantes e hóspedes.
3.Para que serve a poesia?
Digo sempre que "ler" é inspirar, "escrever" é expirar. Eis
a única maneira de manter-me viva.
A poesia, bem como a escrita em geral, serve talvez como
meu melhor canal de comunicação como o mundo exterior.
A poesia lhe dá o direito de ser quem você quiser e permite
que você se exponha com tal franqueza que o torna plural.
Poesia serve para ousar, para opinar, para provocar, para
questionar, para despertar algum tipo de reação em seu
interlocutor (seja ela emocional ou intelectual)... Enfim,
poesia, para mim, serve para viver.
4.O que é necessário para um texto fazer parte do seu
site?
Na "Garganta da Serpente" impera o livre arbítrio. Prefiro
que a triagem dos trabalhos seja feita pela autocrítica de
cada um. Não me permito tais julgamentos subjetivos nem me
considero apta ou suficientemente tola para fazer críticas
literárias. Há muita qualidade embora também tenhamos começado
a ter quantidade. E não me preocupo com isso: os autores têm
absoluta liberdade para solicitar a publicação ou a exclusão
dos seus trabalhos. Já tive alguns "habitantes" que pediram
para retirar seu nome e seus textos do site e, meses depois,
retornaram com um trabalho muito superior. Confio e acredito
na evolução natural dos nossos autores e o fato de terem o
trabalho publicado e submetido à apreciação popular faz com
que cresçam - e essa é uma oportunidade preciosa para
todos.
5.Por quais sites mais navega na internet?
Desde que me formei em Direito na USP, comecei a trabalhar
profissionalmente com Internet. Inicialmente, como webmaker,
montando as páginas dos sites. Depois de um tempo, tornei-me
webdesign. Por causa da minha profissão visito todo tipo de
site, de todo tipo de assunto. Todavia, obviamente, preferia
ter mais tempo para navegar em sites literários e
artísticos.
6.Como vê o fenômeno BLOG?
Tudo o que contribui para que as pessoas escrevam cada vez
mais é muito bem-vindo. O exercício periódico da escrita
parece funcionar muito bem para muitas pessoas, principalmente
para àquelas que se julgam incapazes de uma boa
redação.
7.O livro em papel será substituído pelo
e-book?
Teimo em acreditar que não.
Não consigo imaginar a humanidade privada do prazer de
folhear um bom livro, sentir a textura das páginas, os relevos
da capa, o cheiro das tintas recentes ou do pó das
bibliotecas, sem improvisar marcadores ou usar as "orelhas"
dos livros... E por enquanto, os livros continuam sendo mais
agradáveis e confortáveis aos olhos do que a tela dos
computadores e podem ser levados sempre conosco, para qualquer
lugar...
8.Qual o papel do escritor na sociedade?
Provocar sensações, subverter valores, questionar prazeres.
A preocupação de um escritor não deve ser a brincadeira de
expor-se, mas a delícia de desconsertar. Seu papel é escrever
mais e melhor e sem censuras ou pudores. Os escritores devem
ser as vozes inquietas da sociedade.
9.Você escreve? Quais são as suas influências literárias?
Quem está lendo? Quem você leu?
Tento escrever (e ler) sempre que o tempo permite. É quase
uma necessidade biológica. Quando me percebo imersa nessa
correria louca, nessa falta de tempo quase crônica, confesso
que me sinto um bocado "desnutrida"...
Como poemas são mais curtos e rápidos de escrever que
contos ou romances, vou ajuntando milhares de papeizinhos com
poemas e versos inacabados. De tempos em tempos, procuro
colocar um pouco de ordem no caos. Mas confesso sentir falta
de me dedicar mais à prosa.
Li muito, desde muito pequena: todos os livros infantis,
infanto-juvenis e adultos que caíam em minhas mãos. De Rute
Rocha, Marcos Rey, Ganymedes José e Rubem Alves a Fernando
Pessoa, Maiakovski, Gorki, Youcenar, Clarice Lispector, Ítalo
Calvino, Baudelaire, Ferreira Gulart, Edgard Alan Poe...
Recentemente tenho lido pouco: há uma pilha de livros enviados
pelos hóspedes e visitantes do site do lado da minha cama. Um
dos últimos livros que comprei e gostei muito de ler foi "O
Deus das pequenas coisas" da escritora indiana Arundhati
Roy.
10.Para quem daria um nobel?
Provavelmente para ninguém.
Quem tem legitimidade suficiente para decidir quem merece
um Nobel?
Acho que eu quisesse brincar de Deus e ter o poder de
decidir e julgar, estaria usando meu diploma de
Direito.
11.Qual a relação que você tem com Luz Del
Fuego?
O que sei sobre Dora Vivacqua é que ela foi uma daquelas
pessoas que precisavam ter nascido para sacudir as estruturas
da sociedade.
Acho que minha relação com ela pode ser classificada como
hereditária: minha mãe era chamada de Luz Del Fuego pela minha
avó e pela minha bisavó, devido a sua incorrigível mania de
ficar andando praticamente nua pela casa... Dessa maneira,
cresci num ambiente onde o uso de pouca ou nenhuma roupa
sempre foi permitido. Aprendi desde pequena a encarar a nudez
com muita naturalidade. Obviamente, o fato de ir para a escola
perturbou um pouco meus conceitos. É engraçado, mas as
primeiras coisas que aprendi na escola diziam respeito a
moral, convenções, discriminações, desigualdades e sobre como
temos que viver dentro do "socialmente aceitável". As crianças
aprendem logo que não somos todos iguais. Enfim... demorei um
tempo para me refazer desse turbilhão de imposições e regras e
voltar a ser eu mesma. De vez em quando, minha mãe me lembra
de Luz Del Fuego, quando estou flanando nua pela casa (adoro
ficar assim por um bom tempo depois de tomar banho).
Faz pouco tempo que fiquei sabendo que ela tinha um casal
de jibóias (Cornélio e Castorina). Sinceramente? Não pretendo
criar cobras em minha casa: de serpente já basta eu!
12.Tem algum mote ou epígrafe?
Sempre que estou esmorecendo, lembro-me de Ezra Pound (em
"Canto 81"):
"O que amas de verdade permanece,
o resto é escória
O que amas de verdade não te será arrancado
O que amas de verdade é tua herança verdadeira
(...)"
Rodrigo de Souza Leão