A Garganta da Serpente
Entrevista com Cobra entrevista com nossos autores
Entrevista com:

Viviane Mosé

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- Viviane Mosé -

Entrevista concedida a Rodrigo de Souza Leão nosso habitante para o Balacobaco


Capixaba, radicada no Rio desde 1992, é psicanalista e doutoranda em filosofia pelo IFCS-UFRJ. Como poeta, participou das coletâneas Saco de Gatos (Ímã, 1985) e 7 + 1 (Francisco Alves, 1997). Publicou seu primeiro livro, Escritos, (Ímã, Sub-Reitoria Comunitária UFES, 1990) e seu segundo livro, Toda Palavra, (Sette Letras, 1997) agora em sua terceira edição, e Pensamento Chão, (Sette Letras, 2001). Participou em 1999 do livro Imagem Escrita (Graal, 1999), coletânea de artistas plásticos e poetas, escrevendo sobre o trabalho do artista plástico Daniel Senise. Participou ainda da coletânea de artigos filosóficos "Assim falou Nietzsche" (Sette Letras/UFOP, 1999). Estreou como atriz no monólogo Pensamento Chão, de sua autoria, em cartaz no Espaço Cultural Sérgio Porto, no Rio, em janeiro de 2001, dirigido por Ana Kfouri. Participou desde 1993 do CEP 20.000, Centro de Experimentação Poética do RJ. Fez parte do Grupo Fala Palavra, que juntamente com Chacal e mais seis outros poetas, esteve em cartaz no Planetário da Gávea e no Festival de Inverno de Ouro Preto de 2000, entre outros. Participou de diversos eventos de poesia como Ver o verso, Paiol de Letras, Festival Carioca de Poesia, Encontro Nacional de Contadores de Estórias, Panorama da Palavra, Ribalta da Poesia, Free Zone, dentre muitos outros. É organizadora e apresentadora do livro Stela do Patrocínio, Reino dos Bichos e dos Animais é o Meu Nome, lançado em novembro deste ano pela Azougue Editoria, indicado para prêmio Jabuti deste ano, na categoria psicologia e educação. É professora de filosofia e psicanálise, desde 1998, da Universidade Salgado de Oliveira, em Niterói. É membro e professora da Formação Freudiana, formação em psicanálise, coordenada pelo Dr Chaim Katz.

As diversas variações do poema "acho que a vida anda passando a mão em mim" acabam voltando ao mesmo lugar inicial. A alusão ao eterno retorno nietzschiano é proposital? Fale sobre o poema.
acho que a vida anda passando a mão em mim.
a vida anda passando a mão em mim.
acho que a vida anda passando.
a vida anda passando.
acho que a vida anda.
a vida anda em mim.
acho que há vida em mim.
a vida em mim anda passando.
acho que a vida anda passando a mão em mim
O eterno retorno nietzschiano não é uma simples repetição das coisas. Ao contrário, é a porção mais complexa e difícil do pensamento de Nietzsche. Em meu poema a repetição tem apenas uma preocupação sonora. O poema inicialmente era "acho que a vida anda passando a mão em mim". E só. Como tenho costume de escrever coisas muito curtas, pensei em estender um pouco, explorar mais a frase. Então "a vida anda passando", "a vida anda em mim", "há vida em mim". E o retorno à primeira frase é, este sim, apenas um recurso sonoro, estético e não conceitual. No entanto, é inegável a presença de Nietzsche em meu trabalho. O primeiro texto que escrevi sobre Nietzsche, que se chamava "Nietzsche, Artaud e a Arte", foi minha monografia de graduação em 1987. Na verdade estudo este pensamento desde que entrei na universidade, aos 17 anos. A frase "acho que a vida anda passando a mão é mim", é profundamente marcada por esta influência, mas não intencionalmente ao eterno retorno, e sim à relação íntima que Nietzsche estabeleceu com a vida, que nele diz respeito às intensidades, ao choque de forças, e não à cultura. Dizer que "a vida anda passando a mão em mim" é, para mim, dizer que as intensidades estão ao meu lado, que a vida está me querendo. Ao mesmo tempo percebo que "a vida anda passando", percebo que estou morrendo. E esta idéia, a de morte, não me parece tão ruim. Mas não sei se este tipo de explicação é bom pro poema. Acho mais rico que ele exista sozinho.
Como é fazer amor com o tempo?
por falar em sexo quem anda me comendo
é o tempo
na verdade faz tempo mas eu escondia
porque ele me pegava à força e por trás
um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo
se você tem que me comer
que seja com o meu consentimento
e me olhando nos olhos
acho que ganhei o tempo
de lá pra cá ele tem sido bom comigo
dizem que ando até remoçando
É comê-lo ao mesmo tempo em que ele me come. Olha-lo nos olhos e pedir que me presenteie com sua sabedoria. É pedir que me conte seus segredos. Que sopre coisas em meu ouvido. É parar de lutar contra ele. É perceber sua beleza, mesmo quando dor. Nietzsche musicou um poema de Lou Salomé, que termina mais ou menos assim (não tenho aqui a referência literal): "vida, quando não tiver mais nada a me dar, me dê sua dor". Acho esta a máxima afirmação do tempo. Tempo é vida.
Tempo derretido é poema? O que é o poema? Com quantas metáforas se faz um poema?
O tempo não se cristaliza. Ele é sempre adiante. E o poema, por ser vazio, aberto, por não ser um conceito, é uma moldura vazada onde o tempo flui. Então o poema é um tipo de retrato do tempo. Um retrato móvel, indefinido. Acho que todo bom poema é um ato de amor com o tempo. Ou um namoro. Ou um tipo qualquer de relação. O poema nos permite ver o tempo no espelho. E não a nós mesmos. É mais ou menos assim que penso.
A sua religiosidade e ligação com o espírito santo é a mesma ligação de Adélia Prado?
Eu nasci no estado do Espírito Santo, em Vitória. Esta é minha única relação com o Espírito Santo. O que é bastante. Eu sou aquela terra. Aquela gente. Em meu corpo tem um vento que eu trouxe de lá. Vitória é o chão onde piso mesmo quando piso em outro chão. Além disso sou apaixonada por palavras: acho vitória do espírito santo um nome lindo para um povo.
"E eu, que não sou Clarice nem nada, fui mal forjada,/não tenho bons modos nem berço". Qual influência tem de Clarice Lispector? Quais suas outras influências?
Eu amo Clarice Lispector e Jorge Luís Borges. São palavras que me estimulam a vida, que tocam diretamente em meu corpo. E tenho profunda admiração por João Cabral de Melo Neto, Guimarães Rosa, Manoel de Barros e Arnaldo Antunes. Não sou profunda conhecedora de literatura. Leio apenas por prazer. O que me dedico a estudar é filosofia. Acho que meu poema é mistura disso tudo.
Você acredita em linguagem poética feminina?
Não.
Qual a sua relação com o mundo masculino? Em "Ana" há uma revolta contra os homens?
O poema Ana é um poema que gosto muito. Se você perceber, ele descreve uma trajetória ascendente de afirmação da beleza até o impossível: a Ana era tão linda, mas tão linda, que eu como poeta não tinha mais onde leva-la, o poema se tornou impossível. Então fiz com que sua beleza fosse comida pelo tempo. Quem come Ana é o tempo. Eu adoro os homens, por isso utilizei a metáfora do sexo, ("por falar em sexo quem anda me comendo é o tempo"), para me referir a afirmação máxima da vida, que é a afirmação do tempo. Quanto à minha relação com o mundo masculino, devo dizer que desconheço o mundo masculino, conheço apenas um mundo, o mundo, que tem homens e mulheres coexistindo. Estas diferenciações são reducionistas e polarizadas.
Em que o fato de ser psicanalista ajuda a sua visão de mundo e conseqüentemente a poesia?
A psicanálise é uma atividade clínica que exerço há bem mais de dez anos. Acho que o que mais aprendi em consultório foi conviver com a dor. Sem dramas. Sem novelas mexicanas. No mais as histórias humanas são muito parecidas umas com as outras.
Você tem experiência em falar seus versos em público. Qual a importância do CEP 20 000?
É uma fonte de vida, experimentação, criação. É a melhor coisa (no que diz respeito à poesia) que vivi desde que cheguei ao Rio de Janeiro, e continuo vivendo. Foi ali que desenvolvi minha forma de falar. Por ser um centro de experimentação, o CEP não está sujeito à julgamentos, não é um espetáculo, então pode ser muito bom ou muito ruim. Mas é antes de tudo fértil. Muitas pessoas que hoje se destacam na cultura carioca, não só na poesia, passaram por lá, mesmo que não admitam.
Walter Benjamin erra quando hierarquiza cultura?
Não conheço muito bem Walter Benjamim.
Para que serve a poesia?
Para ser lida, ouvida e degustada.
Por que escreve?
Sempre escrevi, desde criança. Mas não pensava em ser escritora. Queria ser cantora, mas não deu certo. Acho que escrevo porque minhas mãos escrevem. Então resolvi, há alguns anos, seguir esta obsessão, me dobrar sobre ela, dando-lhe um contorno estético mínimo. Acho que daí em diante minha escrita cresceu, se sentiu em casa, e hoje abusa de mim. Isto não quer dizer que eu escreva bem. Quer dizer que o que escrevo hoje é o melhor que posso. É só mesmo isto que posso.
Tem alguma epígrafe?
Não.
Qual o papel do escritor na sociedade?
Não se sabe hoje muito bem o que é um escritor e o que é a sociedade. É isso que ando tentando entender. Mas ainda não sei.

(2002)

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